Inconformados com um mundo que compreendemos cada vez menos, minha prima Ana Paula e eu costumamos trocar informações sobre bizarrices que têm se normalizado – não para nós. Há, por exemplo, indivíduos transidade (pessoas que se sentem com idade inferior a que suas mitocôndrias denunciam). Não, não se trata de adultos imaturos ou infantilizados, isso é "outro ramal", como crava minha mãe quando o exemplo não se adequa à teoria. São pessoas "maduras e responsáveis com uma vida normal" que apenas se percebem mais jovens. Coisa de maluco? Pensando bem, nada de anormal – temos o condenável hábito de achar que malucos são os outros, não é mesmo? Aliás, sou normal, é claro, e também me reconheço como transidade, mas não como o japonês de 40 anos que crê ter 28. Sou excêntrico, às avessas: tenho 55 anos e me sinto com 110. Não que minhas pernas fraquejem. É que entendo como normalidade aquilo que se vivia no início do século passado. Naquela época, filhos não xingavam pais; alunos não ameaçavam professores; populares (não dá para chamá-los de cidadãos) não agrediam policiais durante a detenção de criminosos; e, políticos não eram corruptos, mentirosos e populistas (acho que fui longe demais, políticos não mudaram tanto assim). Há quem goste do atual estado de coisas e até o incentive. Como disse, sou transidade, opto por viver numa realidade paralela. Tenho sorte, pois, se tivessem detectado essa minha condição no final da década de 1980, jamais conseguiria seguir carreira na polícia. E tenho me empenhado para ensinar minha filha a respeitar pais, professores e policiais. O único receio é de que, com esse tipo de educação, ela seja considerada desajustada. Fazer o quê? Culpa de minha idade avançada. Mas essa crônica tem propósito específico: revelar ao caro leitor outra condição que adquiri recentemente em minha psiquê. Um sentimento mais forte do que eu, que me redefiniu. Algo maravilhoso, libertador. Reconheci-me transisento. E exijo ser respeitado por isso. Sinto do fundo da alma que não nasci para pagar IPTU, IPVA, IRPF ou qualquer outro tributo exigido das pessoas que vivem nessa sociedade que descobri não me encaixar. Agora, preciso encontrar uma forma de que o Poder Público respeite condição à qual não tenho forças para resistir. Suplico a todos que não me julguem, que me aceitem como sou e me apoiem nessa luta contra o implacável e insaciável Leviatã devorador de impostos.
* Coronel PM, advogado e escritor.
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