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Sábado, 08 de Agosto 2026
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Violência doméstica contra a mulher

Violência doméstica contra a mulher
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E a importância de grupos reflexivos para homens agressores 
A violência contra a mulher é direcionada à destruição ou ao ataque da subjetividade do outro e surge quando o homem autor de violência doméstica sente que está perdendo seu poder ou se depara com sua impotência. A violência imposta contra o corpo feminino tem como objetivo atingir a subjetividade, a afetividade e o pensamento da vítima e, desta forma, os valores culturais machistas e patriarcais estruturantes estão associados à grave recorrência de violência contra as mulheres e às sérias desigualdades de poder e de direitos enfrentados por elas. 
A mulher vítima sempre foi vista pelo senso comum de nossa sociedade como a responsável por mudar sua própria situação: é ela quem deve denunciar seu agressor, mudar de casa, se divorciar, conseguir sua independência financeira, ter coragem de enfrentar o marido, dar um basta nas agressões etc. Além disso, ela é julgada pela sociedade por não conseguir se livrar do ciclo de violência. No entanto, é muito comum que mulheres vítimas fiquem isoladas de sua rede de apoio e da comunidade, o que facilita o controle do agressor sobre a vítima. Para que seja rompido o ciclo da violência, é necessário que exista uma rede articulada de apoio à mulher agredida. 
E essa rede existe! 
Antes da lei Maria da Penha (2006), a mulher que sofria agressões de seu companheiro vivenciava um grande sofrimento, pois não era ouvida, sua palavra não tinha valor e sua dor era algo comum e pertencente à dinâmica familiar. Existia (e ainda existe) a ideia de que “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, ou seja, em agressões e conflitos conjugais não poderia haver intromissões de terceiros, sendo o casal uma unidade familiar e os únicos responsáveis por mudarem ou não sua relação violenta. No entanto, “as brigas entre marido e mulher, que ninguém deveria meter a colher” deixaram o espaço privado e particular e passaram a ser entendidas como questões públicas, em que o Estado e a sociedade devem sim intervir e denunciar. 
Porém, para que possamos de fato começar a mudar este triste cenário, não basta apenas entender a dinâmica psicológica da mulher agredida e conhecer a Rede de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, é preciso voltar o olhar para o homem autor de violência doméstica. Se a vítima é a responsável por se manter submissa e dentro de um ciclo violento – seja por medo, vergonha, culpa, escassez de recursos financeiros, sentimento de merecimento, dependência emocional, pelos filhos, falta da rede de apoio familiar e comunitária, falhas judiciais, entre vários outros aspectos – o autor de violência doméstica é o responsável por perpetuar tais comportamentos violentos. 
É importante que homens e mulheres se responsabilizem por seus lugares de autores e vítimas de violência doméstica, em que ambos desempenham papéis de responsabilidade e de vitimização. Pois, não podemos atribuir as causas e a mudança deste cenário apenas à vítima que se mantém nesse tipo de relação, devemos também responsabilizar o homem autor de violência doméstica e analisar este fenômeno de forma abrangente para que novas possibilidades de mudanças e transformações possam ocorrer entre os sujeitos que apresentam tais comportamentos agressivos. O agressor também precisa ser alvo de programas de sensibilização e desconstrução do machismo estrutural internalizado individualmente, pois esse agente de violência pode se tornar aliado na mudança individual, social e cultural. 
O exercício do poder do homem sobre a mulher torna o lar um lugar de violência habitual que é aceito pela sociedade patriarcal e machista, que não é questionado e nem gera estranheza. Porém, o papel do homem na relação familiar pode e deve ser modificado para uma outra forma que não seja violenta, intransigente, dominante e agressiva. Dessa forma, para que de fato haja uma grande mudança sobre esse tema, é fundamental que o homem autor de violência doméstica seja o responsável por mudar seu comportamento e se conscientizar de seus atos violentos, machistas, opressores e de objetificação do feminino, pois só ele pode ser agente de transformação da violência familiar. Pois, assim como ele é o responsável pela perpetuação do comportamento violento, ele pode ser o responsável pela mudança comportamental e substituição do padrão estrutural machista vigente para uma estrutura igualitária, que adere a ideia de igualdade e respeito entre os sexos. 
A sociedade sexista posicionou a mulher em um lugar de subordinação histórica perante o homem, o silêncio e a submissão exigida pelo patriarcado como conduta adequada do feminino impediram o empoderamento da mulher por muitos e longos anos. Por isso, a violência masculina e a desvalorização da mulher se tornaram fortes elementos presentes em nossa sociedade e, romper uma relação mesmo que seja de violência, pode significar para algumas mulheres a perda de sua própria identidade devido à dependência (financeira, emocional, afetiva etc.) do marido. Outras vítimas entendem que, mesmo com a dor sofrida na relação, existe algo de valor que compensa a situação (como amor, proteção, meios econômicos, filhos etc.); algumas pensam nos filhos, mas não percebem que se manter em uma relação abusiva é mais prejudicial que benéfica às crianças. Há ainda casos em que existe a dependência financeira, rede de apoio frágil ou inexistente, amor, vergonha, culpa, impeditivos religiosos, crenças de que podem mudar o companheiro, medo de maior violência após o rompimento da relação, e a aparente passividade que, na maioria das vezes é interpretada como aceitação, mas que na verdade pode ser uma paralisação causada pelo pânico diante do medo do sofrimento e da morte que o autor pode infligir em sua companheira. 
O homem autor de violência doméstica pode produzir a violência por diversos motivos, sendo que o principal e mais comum é o sentimento de insegurança desperto por diferentes causas, como: ciúmes, desemprego, comparação e competição com outros homens, ou comportamento aprendido na infância devido a experiências violentas. Além disso, de acordo com a visão patriarcal, o masculino é entendido como um lugar de ação, de decisão, de chefia da rede de relações familiares como sinônimo de provimento material, e essa visão sobre o lugar do masculino permite ao homem exercer o poder da violência e do domínio sobre as pessoas. 
As crenças, os pensamentos ou os comportamentos mais comuns entre homens autores de violência é que ele deve ser sempre o provedor do lar; deve ser visto como superior e mais importante nas relações devido à sua posição hierárquica masculina; deve ser respeitado por suas escolhas e decisões; tende a ver a mulher como um objeto de posse e propriedade; e não pode ser questionado, porque homem não falha, ou melhor, não tem o direito de falhar, já que representa a força, quase a perfeição. Além disso, a expressão da violência do homem pode ser entendida a partir da dominação masculina, ideias que estão vinculadas ao conceito de hegemonia e androcentrismo em que a violência representa o ponto culminante da afirmação da virilidade, como forma de expressão da superioridade do homem. 
É óbvio que existem mulheres machistas e homens feministas, mas nossa sociedade foi desenvolvida predominantemente pelo viés patriarcal, logo, todos nós somos imbuídos em maior ou menor grau de conceitos e comportamentos machistas, por isso, é preciso haver a conscientização dessas estruturas para que a transformação comportamental e ideológica ocorra em nossa sociedade. Afinal, o sistema patriarcal constitui, em si mesmo, uma violência social e política contra os gêneros não-masculinos, deslegitimando sua cidadania e alijandoos do exercício do poder, seja ele privado ou público. 
A mulher não pode mais ser vista como objeto, inferior, submissa, desvalorizada, julgada como arrogante por ser inteligente ou por ocupar altos cargos, por ter independência financeira, emocional, por não querer se casar ou ser mãe, por ser LGBTQIA+, por ser livre das amarras sociais, familiares, profissionais e religiosas. Ela não pode mais sentir culpa por ser quem ela é, não pode ser responsável pelos ditames machistas impostos a ela, por isso, é preciso lutar pelos direitos iguais e contribuir de forma enfática na transformação social. 
No entanto, mesmo com a criação de leis que asseguram os direitos à vida e à proteção das mulheres, a frequência de casos de violência contra a mulher e de feminicídio são alarmantes e assustadoras. O feminicídio é o último degrau na chamada escalada da violência, que sucede a ridicularização, o controle e o isolamento, a ameaça e a violência física. As orientações e as punições oferecidas aos autores de violência doméstica pelas políticas públicas não são suficientes, pois além de serem exclusivamente punitivas, elas não estimulam e não ensinam outra forma de conduta, não geram reflexão, tampouco oferecem manutenção comportamental, emocional e psicológica para o autor. 
A lei Maria da Penha prevê atendimento em programas de recuperação e reeducação para o homem autor de violência doméstica, por isso as medidas de punição devem caminhar sempre junto de iniciativas socioeducativas, pois é neste contexto que os grupos reflexivos para agressores devem ser inseridos, cujas metodologias visam alterar comportamentos violentos e descontruir a internalização do machismo no próprio homem, dando suporte afetivo e emocional quando necessário, apresentando alternativas ao comportamento violento e valorizando a responsabilidade de gênero. 
O desenvolvimento de projetos e grupos reflexivos para homens autores de violência doméstica têm se mostrado bem mais eficazes para a possibilidade de novas formas de relacionamentos, para a exposição segura e sem julgamentos de seus próprios medos e temores em salas de debate sobre a mentalidade machista e combate à violência, do que meramente impor formas de punições. É preciso prevenir, educar e refletir para que possamos caminhar para uma mudança deste cenário. 
É preciso difundir essa ideia para que o impacto social relacionado ao entendimento real sobre o que é o machismo e o patriarcado seja espalhado e alcance o maior número de pessoas possível. Só assim, com compreensão e educação, é que podemos ter esperança de que o cenário de violência contra a mulher seja cada vez mais escasso e raro. O tema é complexo e envolve uma série de fatores culturais, emocionais, sociais e jurídicos, mas a educação salva, e entender o que é o machismo e o patriarcado, e como esses conceitos estão diretamente relacionados à violência doméstica, pode salvar a vida de muitos homens e mulheres. 
Texto por: Thaisa Ferreira – Psicóloga – CRP 06/108143 
Instagram @thaisaferreirapsi Thaisa já atuou com os autores de violência doméstica no Projeto Tempo de Despertar e com mulheres vítimas na Casa da Mulher Brasileira, em São Paulo. É idealizadora e cofundadora do “Projeto ELUS”, que prevê atendimento para o homem autor de violência doméstica e capacitação para os profissionais da Rede de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher. É autora do projeto “SEM SILÊNCIO, SEM SEGREDO: Proteção, Identificação e Prevenção ao Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes”, que tem como principal objetivo a capacitação de profissionais da Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente.

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