A novelesca Roitman tombou, abrigando emoções de milhões de brasileiros e exigindo astúcia de um Sherlock real para desvendar o crime fictício. Quem matou?
A ficção consegue nivelar-se à realidade. Fica difícil distinguir. É o caso da máfia na Sicília: você não sabe o que é imaginário no mundo dos capos e o dia a dia da sociedade. Os mafiosos se intitulam “homens de honra”. Caindo na real: Odete Roitman simboliza muita coisa do Brasil.
Odete, muito bem interpretada por Debora Bloch, uma esperta com maldade, cheia de dinheiro e sem alma. Na ficção, é o telespectador que controla o andar da carruagem. Assassinato e até ressurreição moral podem acontecer na vida real. Daí o vale tudo do enredo: identificar-se com a personagem ou odiá-la. A política parecia transitar por um novo tempo. Logo depois, a frustração. Virtude apresentada como monopólio. Odete passa a ter um jeito todo pessoal de viver e se torna uma espécie de código genético com cromossomos de decência social e a ética. Sociedade desigual, muito ou pouco dinheiro.
A Odete de nosso mundo vive com farsas, embustes, manipulações estatísticas e dados que a política faz de tudo para acobertar. É exatamente a contagem dos assassinatos. Odetes femininas e vítimas masculinas atingem a um número que nos coloca entre os maiores do mundo. Apedeutas acadêmicos lançam a culpa da matança no governo. Nada sabem do que afirmam com convicção, repletos de alvos politizados e verdades sangrentas sepultadas.
Vejamos: o homicídio não é previsível. Desde Caim, carrega rancor, cíumes, ódios, impulsos e até amor. São as emoções de cada um em seu ambiente. Se alguém decidir por matar, nada impedirá. Diminui a prática em determinado governo? Falso. Mais homicídio, menos competência? Igualmente falso. A prática é cultural. Já tivemos até matança em “defesa da honra”, como vergonhosamente a Justiça admitiu por longos anos. Nada disso tem a ver com qualquer governo ou polícia. Tem a haver, isto sim, com quem vive de braços cruzados, como os experts em ciências ocultas, ou até mesmo sociais, sempre de dedo em riste para quem nada tem a ver com a expansão dessa calamidade.
As mulheres ganham destaque outra vez nas estatísticas criminais. Ameaçadas, fazem registro burocrático, ganham inexistentes medidas de proteção e mesmo assim são mortas. Alguém teria que fazer mea culpa. Mas não. Preferência por dolosamente enganar.
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