Sou insistente. Volto ao tema da Defesa Nacional porque ele precisa sair dos círculos especializados e entrar no cotidiano do cidadão, em casa, no trabalho e na mesa de bar.
A História demonstra que a paz estável depende, em grande medida, da capacidade das lideranças políticas de compreenderem a diplomacia como colchão entre antagonismos, enquanto administram e fortalecem a força em armas em benefício da própria diplomacia, com vistas a alcançar os objetivos nacionais.
Relembro algumas perguntas já formuladas para organizar esse debate: qual é o entendimento da classe política sobre o orçamento de defesa, a diplomacia militar, a proteção das fronteiras e o fortalecimento da indústria nacional de defesa?
Há quase um aforismo a orientar essa reflexão: Estados que negligenciam sua capacidade de defesa acabam descobrindo, tarde demais, que estabilidade interna e externa não se garantem com declarações de boas intenções.
Quem imaginaria, há poucos anos, o mundo como o vemos hoje? Ataques a países soberanos, captura de líderes constituídos por forças estrangeiras, combates que lembram a batalha de Kursk e a eliminação sistemática de lideranças adversárias. A política internacional voltou a conviver com a guerra em escala e com a coerção militar como instrumento de poder.
Nesse cenário, qual deve ser o perfil do cidadão indicado para o cargo de ministro da Defesa?
Nas democracias contemporâneas, a pasta responsável pela defesa não pode ser tratada como mero arranjo administrativo ou como espaço de acomodação política.
O titular do cargo deve ser o agente institucional que assegura que o poder civil exerça sua autoridade estratégica sobre as Forças Armadas sem comprometer o profissionalismo militar.
Samuel Huntington, em O SOLDADO E O ESTADO, dedica um capítulo à estrutura ministerial nas relações entre civis e militares.
Segundo o autor, cabe ao ministro atuar como elo entre o nível político e o poder militar. De um lado, traduz para as Forças Armadas as orientações estratégicas do governo. De outro, leva à liderança política a avaliação dos comandantes militares sobre capacidades, riscos e limitações para o cumprimento de suas missões.
Huntington acrescenta uma advertência moral relevante. O cargo deve representar, para o cidadão escolhido, o ponto culminante de sua trajetória pública. Não deve servir de trampolim para voos eleitorais futuros.
A razão é simples. Quando o responsável civil pela condução da defesa passa a enxergar o posto como etapa intermediária de carreira, abre-se espaço para que decisões estratégicas, muitas vezes com impacto partidário, sejam contaminadas por cálculos políticos de curto prazo.
Sem essa isenção institucional, dois riscos costumam surgir. O primeiro é a politização das Forças Armadas, o que anarquiza sua profissionalização. O segundo é a incompreensão do fenômeno militar pela instância política, produzindo decisões tomadas sem plena consciência de suas implicações operacionais.
Há uma passagem pitoresca, historicamente não confirmada, atribuída ao Duque de Caxias.
Em um despacho ministerial, o marechal teria deixado cair deliberadamente sua espada no assoalho do palácio para despertar a atenção de um sonolento Dom Pedro II diante da gravidade de uma questão militar.
Surpreso com o estrondo, o imperador teria perguntado se Caxias também deixava cair a espada nos campos de batalha.
A resposta veio direta: na batalha não há tempo para dormir.
A lição permanece atual. Há momentos em que a condução política do Estado precisa voltar-se diligentemente para os assuntos da guerra. Precisa despertar. Precisa ouvir a espada que cai no chão.
No mundo contemporâneo, essa advertência torna-se ainda mais pertinente. A ordem internacional passa por uma reconfiguração marcada pela rivalidade entre grandes potências, pela expansão acelerada de arsenais e pela crescente utilização do poder militar como instrumento de pressão política, lembrando, em muitos aspectos, a dinâmica de poder do final do século XIX.
Ao anunciar recentemente a modernização e ampliação do arsenal nuclear francês, o presidente Emmanuel Macron sintetizou essa realidade com franqueza: “para sermos livres, precisamos ser temidos”.
A frase pode soar dura aos ouvidos acostumados ao vocabulário diplomático, mas expressa um princípio conhecido desde Tucídides. A liberdade de uma comunidade política depende, em última instância, de sua capacidade de defesa.
Não basta proclamar a paz como valor. É preciso sustentar instituições capazes de preservá-la e, se necessário, em armas, defendê-la.
Nesse esforço, o Ministério da Defesa constitui o espaço institucional onde se estabelece o diálogo permanente entre a condução política do Estado e o emprego do poder militar. É ali que a estratégia nacional deve ser pensada com lucidez, responsabilidade e sentido de Estado.
Parafraseando Maquiavel, é nesse âmbito que o príncipe encontra os meios e as ideias para proteger seu governo diante das ameaças de rivais consanguíneos ou reinos vizinhos que cobiçam sua coroa e suas riquezas.
*General da reserva
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