Nestes meses que antecedem a premiação do Oscar, multiplicam-se as estreias de filmes que almejam receber a tão almejada estatueta. Como cinéfilo que sou, neste período do ano, sinto-me como aquela criança que pela primeira vez vai a um parque de diversões. É um momento de grande excitação, os olhos brilham, o coração bate acelerado a cada nova criação que podemos assistir.
Neste fim de semana a atração foi HAMNET, um filme baseado no livro da escritora Maggie O’Farrell, uma ficção da vida de Willian Shakespeare centrada em sua esposa Agnes e os filhos do casal. O filme é um primor. O esmero da cenografia, do figurino e da fotografia nos transportam para vida no interior da Inglaterra do fim do Século XVI. Mas, com certeza, o grande destaque do filme são os atores, notadamente seus protagonistas que conseguem nos passar toda angustia e tensão que traz o roteiro.
É um filme que por sua beleza e construção nos deleita, nos dá prazer, mas que sobretudo, por sua temática, nos faz pensar. A tragédia de Hamlet, as suas inquietações e perturbações podem embalar o cotidiano de qualquer pessoa, senão com o mesmo tom de drama, mas com a relativa semelhança dos desafios e desassossegos experimentados por todos. Da obra de Hamlet trago dois momentos à reflexão.
O primeiro deles, bastante explorado no filme, o famoso monólogo “Ser ou não ser eis a questão”. Diante de infortúnios como: "os açoites e escárnios do tempo, a injustiça do opressor, a afronta do soberbo, as angústias do amor desprezado, a demora da lei, a insolência do cargo e as bofetadas”. “Será mais nobre à mente suportar… ou armar-se contra um mar de atribulações…”
O "ser" em questão é o viver suportando de forma resignada os infortúnios ou enfrentando-os de forma obstinada. O "não ser” arremete ao morrer, acabar com o tormento pondo-se fim à própria vida, pensamento que passava por sua mente atormentada. Nós que queremos ser, viver, vamos estoicamente suportar resignados aquilo sobre o que nada podemos fazer e, dentro do que for possível, agir contra os males que nos afligem.
A outra citação da obra de Shakespeare, esta não presente no filme, também muito conhecida e que me surge atrelada a uma realidade vivida por nós brasileiros é aquela que diz : “Há algo de podre no reino da Dinamarca”. Podridão caracterizada na peça pela contestada legitimidade do poder, pela abalada confiança social e pelo trato da verdade.
Aqui, como lá, a podridão é algo que começa pequeno e vai se alastrando comprometendo todo trato social e atingindo a todas as pessoas, na medida que não existem mais referências do que seja o certo ou o errado. São visíveis as práticas não éticas de políticos, juízes, empresários, mas do que não se fala é que eles são uma pequena mostra de uma sociedade que há anos vem se distanciando dos valores que devem sustentar o regrado convívio social.
Saem de cena a ética e a verdade entram em cena os interesses pessoais e o radicalismo ideológico. O nível de podridão atinge patamares inimagináveis na medida que aqui toma conta de nossas mais altas cortes. O que se iniciou com venda de sentenças, favorecimento a alguns, perseguição de outros, hoje mostra estes personagens participando das ilegalidades. Quem deveria julgar, demonstra não ter o menor apreço pelo que seria minimamente aceitável como correto.
Ser ou não ser um verdadeiro brasileiro, indignar-se e continuar lutando ou desistir do nosso país, desistir do nosso lar, desistir do lar de nossos filhos, netos e bisnetos. O que queremos? O que é mais nobre fazer? Você decide.
*Um cidadão brasileiro
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