É utopia, mas gostaríamos muito de andar sossegados pelas ruas, não desconfiar que bandidos estejam à nossa espreita, sair e voltar tranquilos para casa, ver quem faz o que não deve pagando o preço.
Sonhamos com algo realizável: a tolerância zero, um modelo desenvolvido há anos em Nova York, cidade que tinha então índices criminais alarmantes. A ideia surgiu a partir de uma teoria chamada “vidro quebrado”. Ela foi desenvolvida com experiência prática: um carro foi abandonado em lugar carente de iluminação e policiamento. Outro carro foi deixado em ponto iluminado e seguro. Resultado: o primeiro carro teve os vidros quebrados e foi logo saqueado. O outro ficou intacto. Consequências: o carro vandalizado provocou muitos fatos criminais nas imediações. No outro, nada se alterou.
Análise: se você não levar em conta a prática de pequenos delitos, os criminosos percebem a vulnerabilidade do local e passam a praticar delitos mais graves. Assim, entendeu-se em NY: a prevenção dos crimes começa a partir dos casos que consideramos de menor potencial ofensivo. O vidro quebrado significa abandono, criminosos passam a acreditar que podem fazer o que quiserem. O modelo nova-iorquino passou a ser observado. Incluía mais detalhes, entre eles o acompanhamento rigoroso das estatísticas: se certo ponto da cidade passa a ter índices criminais maiores, o planejamento da Polícia é imediatamente alterado.
O esquema é interessante. Com uma urgente extensão: tolerância zero para ineptos que continuam pretendendo ensinar o padre nosso para vigário, isto é, o que a Polícia deveria fazer no exercício de suas funções. Como nada entendem na matéria de segurança, examinam as estatísticas, obviamente de origem policial, e passam a palpitar em todos os tipos de ação. Numa das últimas elucubrações, um desses iluminados teve a audácia de afirmar que os números de homicídios haviam declinado por causa das ações intimidativas de uma facção criminosa, assassina entre seus próprios membros. Homicídio é interpessoal. Feminicídio nada tem a ver com facção. Os falsos entendidos se transformam em assistentes sociais com propostas que consideram mágicas “soluções” em várias esferas educacionais e desigualdades, desconectadas das ações policiais. Sem contar lentidões e inércia da Justiça, denúncias criminais sem resultados e sistema prisional falido.
Tudo isso é o que não podemos mais tolerar.
*Jornalista e escritor
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