O dia 21 de março carrega o peso da memória. Não é uma data de celebração festiva, mas um lembrete nascido do asfalto de Sharpeville, na África do Sul, em 1960. Ali, o clamor por direitos básicos foi respondido com violência e, hoje, décadas depois, a luta pela eliminação da discriminação racial mudou de face, mas a estrutura que sustenta a exclusão permanece resiliente. Falar sobre discriminação racial no Brasil e no mundo exige, antes de tudo, coragem para admitir que o racismo não é um incidente isolado ou um desvio de caráter. Ele é, em sua essência, estrutural, ditando quem ocupa os cargos de liderança, quem tem acesso à saúde de qualidade e quem é, estatisticamente, o alvo preferencial da violência urbana.
Ainda enfrentamos o perigoso mito de que vivemos em uma democracia racial plena. No entanto, os dados não mentem: o abismo salarial entre negros e brancos e a sub-representação em espaços de poder são sintomas de uma doença social que o tempo, sozinho, não cura. O silêncio diante da desigualdade não é neutralidade; é cumplicidade. A eliminação da discriminação racial não é uma tarefa exclusiva das populações vitimadas por ela, mas uma responsabilidade coletiva que exige letramento racial para entender como o preconceito se esconde em expressões cotidianas e vieses inconscientes. É necessário, também, o fortalecimento de ações afirmativas para reconhecer que tratar de forma igual exige, primeiro, corrigir as desvantagens históricas, além de uma constante vigilância tecnológica para garantir que, em um mundo mediado por algoritmos, a inteligência artificial não automatize e amplifique o preconceito do passado.
O 21 de março nos convoca a uma reflexão profunda sobre o que cada um de nós, e cada uma de nossas instituições, está fazendo para desmantelar as engrenagens da exclusão. Combater o racismo não é apenas uma questão de ética ou de direitos humanos; é a premissa básica para o desenvolvimento de uma sociedade verdadeiramente democrática e justa. Que este dia não termine em vinte e quatro horas, mas que se desdobre em políticas públicas, em mudanças reais de cultura organizacional e, acima de tudo, em uma postura antirracista ativa e inegociável.
Comentários: