Em 1739, David Hume, filósofo, historiador e economista, com apenas 29 anos, publicava a obra Tratado da Natureza Humana. Nela, ele escreveu: “A razão é, e deve ser, apenas escrava das paixões”. Ao enunciar essa frase ele não quis, de forma alguma, colocar a razão numa condição secundária e subalterna mas, sim, dizer que "a razão, sozinha, não move a vontade humana, o que nos move são nossas paixões, os nossos desejos, afetos e inclinações.
A neurociência, hoje, não desmente o que foi dito por Hume. Com todo avanço científico, logicamente, a visão não é a mesma, mas persiste o entendimento que a razão não age independentemente. Para a neurociência, a razão e a emoção coexistem com interdependência. A razão pode regular a emoção e a emoção pode orientar a razão.
Este é um tema de bastante complexidade e amplitude que, mesmo sem que percebamos, às vezes, regula tudo aquilo que pensamos, idealizamos, fazemos e tudo o que acontece à nossa volta e pelo mundo. Por isso, pode ser que ele explique muitas das coisas que testemunhamos mas que, por vezes, fogem à nossa compreensão.
Em ano de eleições vamos, dessa vez, focar nessa importante questão: a escolha dos candidatos.
Daniel Kahneman renomado psicólogo que distinguiu o pensamento rápido, instintivo e emocional, do pensamento lento, analítico e racional, dentre os muitos eventos de que trata no seu livro, ao enfocar em votações, fala dos erros que podemos cometer ao nos deixar levar por impressões e associações do nosso pensamento rápido que nem sempre apontam para que votemos no candidato mais adequado, no mais íntegro para ocupar o cargo.
As paixões que carregamos, impressões e associações que fazemos, muitas das vezes, nos direcionam a fazer o X ou digitar o número daquele candidato mais apresentável, o mais simpático, aquele que promete resolver o meu problema ou aquele que é mais popular.
Em se tratando de Brasil, valer-me-ei do autor de Raízes do Brasil, o clássico em que Sérgio Buarque de Holanda, nos apresenta o “homem cordial”, figura já presente em minhas crônicas. Para Buarque de Holanda, esse homem cordial encarna o espírito do homem brasileiro: o homem que age movido pelas emoções, pelo coração e que não é voltado a agir pela razão ou pelo que tratam as convenções sociais e o regramento da lei. Um traço cultural forte que impacta toda vida nacional.
Ao olharmos a nossa história recente e o quadro eleitoral que se avizinha, constatamos que, infelizmente, o homem cordial continua cada vez mais vivo em nossas almas orientando nossas escolhas. Nas Prefeituras, Assembleias Legislativas, Congresso Nacional, governos federal e estadual, pululam populistas, enganadores com falsas promessas, mitos, salvadores da pátria e, cada vez mais presentes, aqueles que atendem ao radicalismo ideológico à esquerda e à direita.
Hume nos mostrou a influência das nossas emoções sobre a razão, Kahneman nos alerta sobre os erros que podemos cometer em nossas escolhas quando desprezamos o pensamento racional, privilegiando o intuitivo. E a neurociência nos adverte que, embora a emoção possa orientar a razão, esta pode regular a emoção.
Esta seria a chave do problema: a regulação das nossas emoções. Num momento em que tratamos de algo de elevada importância, não podemos apenas nos guiar pelos nossos interesses, pelas nossas impressões, pois disso depende o futuro de nossos filhos, o futuro do país e das próximas gerações. E falando em pensar, em analisar o que é melhor, de uma coisa devemos nos afastar: o idealismo radical. Este nos emburrece, este nos torna verdadeiros ESCRAVOS DE UMA PAIXÃO.
*Um cidadão brasileiro
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