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Sábado, 17 de Outubro 2026
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O disfarce da covardia

Ao longo da história da humanidade, deparamo-nos com uma linha que separa líderes corajosos e pacíficos daqueles covardes

O disfarce da covardia
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Ao longo da história da humanidade, deparamo-nos com uma linha que separa líderes corajosos e pacíficos daqueles covardes que, em proveito próprio, costumam ceder à tirania e ao próprio ego.

Uma fábula atribuída a Esopo, escritor da Grécia Antiga, considerado o pai da fábula como gênero literário, conta que um lobo, cansado de ser reconhecido e afugentado pelo pastor, encontra uma pele de carneiro, veste-a e se mistura ao rebanho. Durante algum tempo, a estratégia funciona: ele come sem ser notado.

Essa metáfora, que nos remete ao ditado popular “lobo em pele de cordeiro”, revela que a covardia, quando ocupa uma posição de poder, raramente se apresenta como tal, porque ela precisa de um disfarce, e o mais eficiente deles é a mansidão. O lobo é um predador intrinsecamente agressivo e voraz; o covarde no poder esconde seu medo agindo de forma evasiva e recuada.

A relevância dessa questão se destaca quando, no Sermão da Montanha, conforme Mateus 7:15, Jesus adverte seus ouvintes contra os falsos profetas, que chegam vestidos de ovelhas, mas que por dentro são lobos devoradores, deixando-nos um dos alertas mais profundos e práticos sobre o discernimento espiritual e o comportamento humano.

No trato do dia a dia, é de fácil comprovação que o líder covarde se traveste de manso em busca, tão somente, dos benefícios e dos holofotes da liderança, na autopreservação, na tentativa de se manter em evidência.

Ele se esquece, porém, de que a liderança verdadeira nunca é definida pela posição, mas pela disposição de se colocar como aquele que lidera com ética.

No livro Cartas de um diabo a seu aprendiz (1942), C. S. Lewis, em linhas gerais, observou que a coragem é mais que uma mera virtude: é a forma que todas as outras assumem quando são postas à prova. Isso porque, em qualquer situação ou pressão, a honestidade, a ética e a misericórdia continuam existindo se houver coragem para sustentá-las. O próprio Lewis lembra o exemplo de como Pilatos foi misericordioso até o momento em que isso se tornou arriscado.

Nesse passo, é de se ter cautela, pois a liderança covarde é perigosa por raramente se apresentar como tal. Pelo contrário, ela se veste com os trajes das qualidades que mais admiramos, como mansidão, humildade, cuidado, abertura ao diálogo e equilíbrio, e usa esse disfarce para fugir de suas responsabilidades e, muitas vezes, insuflar a discórdia nos bastidores.

Reconhecer esse tipo de pessoa exige olhar além do discurso e observar os frutos. Combatê-la exige construir ambientes que valorizem a franqueza, protejam quem discorda e responsabilizem quem se omite. E evitá-la exige, de cada um de nós, a disposição de pagar o preço da liderança verdadeira: dizer o que precisa ser dito, assumir o que é nosso e permanecer ao lado do rebanho quando o lobo se aproxima, sobretudo quando o lobo é a nossa própria vontade de fugir.

Por fim, lembremos que o homem de bem nunca se define pela ausência de medo ou pela suavidade de suas palavras, mas pela firmeza de seus passos quando a tempestade exige dele uma postura de guardião.

Governador 2006/2007 do Distrito 4430 de Rotary International

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