Dizem as más línguas que existem três tipos de mentira: as pequenas, grandes e estatísticas. O pior é que línguas que se apresentam como “boas” também mentem.
Vejamos como se arma a mortífera arapuca. Estudo da Cambridge University, realizado em 18 países, revela que, no espectro da América Latina, muita coisa é bem ao contrário daquilo que se costuma propagar. Algumas mentiras, por dolosas intenções políticas e ideológicas - pragas e viroses dos nossos tempos. Outras, por equívocos deliberados de “especialistas” e “professores”, em disciplinas que nunca tiveram algo a ver com segurança pública.
Terríveis constatações. Não procede o chavão atribuindo o crime em larga escala apenas à ausência do Estado. De fato, isso acontece. Mas, quando a repressão aumenta, o sistema criminoso fortalece seu domínio em determinados lugares: os bandidos querem que a Polícia fique longe, para não prejudicar o tráfico. O sistema de governança coloca ordem, impedindo roubos, violência doméstica, ataques sexuais e brigas. Por incrível que pareça, a segurança local melhora. Tanto que, em algumas delegacias, recomenda-se às vítimas procurar os chefões de uma favela, ali “autoridades”, para que um caso seja resolvido. Dominando a área, fazem exemplares punições violentas em público e aplicam a pena de morte. Ninguém ousa desafiar.
Um Fórum composto por “especialistas” baseia seus dados nos boletins de ocorrência, de onde tiram suas conclusões fora do eixo. B.O. é apenas um registro. Se houver motivação, instaura-se inquérito policial. Se bem fundamentado, o promotor oferece denúncia. Se o juiz concordar, recebe a denúncia e julga. Não se pode basear apenas em b.o.s. Prisões cheias? Mas quem manda gente para lá? Juiz e não Polícia. Nas análises despidas de fundamentação adequada, a Polícia (que produz os dados criminais!), nunca é ouvida. Os “especialistas”, apresentando-se como professores nas mais variadas Faculdades, refugiam-se em paredes acadêmicas. Blindam-se. Seus palpites custam bem caro.
É terrível que nós, como sociedade, sejamos forçados a conhecer a realidade por meio de estudo feito fora do País. Fruto da cegueira deliberada, o crime organizado já se instalou em 16 municípios, doze em mais de um estado e 52 locais. Claro que não se resolve tudo só com a Polícia. Existem aspectos sociais. E assim será enquanto incompetentes ditarem as perniciosas regras.
*Jornalista e escritor
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