Num futuro que me parece muito distante, talvez possa compartilhar com o caro leitor impressões sobre assuntos amenos. Eventualmente, indicar relações de livros e de filmes por mim julgados interessantes (já que não reúno aptidão para sugerir receitas gourmet, nem para traçar mapas astrais). Por enquanto, vejo-me atado a temas mais densos, que insistem em se fazer presentes na vida de nossa grande aldeia, ops, nosso País – a República de Pindorama. Esqueça Peter Drucker e outros gênios da gestão moderna: diante do tarifaço imposto pelos EUA, nosso presidente declarou, com a convicção que só os ungidos possuem, que ligará para o presidente americano quando sua intuição mandar. É isso mesmo, 212 milhões de almas regidas pela intuição de um escolhido? Os produtos que permanecem alvo da taxação de 50% representam impacto de 14 bilhões de dólares em nossas exportações (valores de 2024) e potencial fechamento de mais de 100 mil postos de trabalho por aqui. É além de vaidade de cacique, ops novamente, de presidente, é soberba em estado bruto – a certeza da superioridade moral, crença que o fez alegar, ainda, que não ligaria para Trump a fim de evitar que fosse humilhado – atitude um tanto paradoxal para quem, a todo momento, compara-se a Jesus Cristo, o Rei dos Humildes. É bem verdade que o tarifaço americano se assemelha à queda de avião, impossível de ser explicado por uma causa única. Serenidade não me parece ser traço característico de Trump, mas, ainda que ele não guardasse mágoa pelo fato de o governo pindoramense ter explicitamente apoiado sua adversária na última eleição presidencial, não seria esperado que nutrisse simpatia por governo que mantém estreita relação com a Venezuela (sob ditadura, a qual, no eufemismo de nosso presidente, foi classificada apenas como “regime muito desagradável”, mas não ditadura) e com o Irã (que financia o Hamas, o Hezbollah, os Houthis e outros tantos grupos terroristas). O copo do Tio Sam parece ter transbordado com a insólita proposta presidencial pindoramense, apresentada em encontro dos BRICS, para desdolarização do comércio internacional. Entre escolhas equivocadas, amadora diplomacia, proposta de diálogo regado a jabuticabas e espera do despertar da intuição, nosso “democrático e soberano” Estado se comporta como se estivesse diante de iminente tsunami, aguardando trágico impacto para, depois, contabilizar estragos.
* Coronel PM, advogado e escritor
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