Em troca de conhecimento e prazer absolutos, Fausto vendeu sua alma para Mefistófeles. O que se desenvolve a partir daí é profunda tragédia escrita pelo escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe. Por aqui, nossa tragédia é mais simples, porém mais profunda: o País estagnado em crescimento há décadas, como causa e, ao mesmo tempo, efeito de nosso medíocre nível educacional e pífio investimento em infraestrutura. Há outras mazelas que também nos puxam para trás, para esse atraso tão romantizado por pseudointelectuais da miséria do bolso e do espírito: há poucos dias, numa nada pacata cidade pindoramense, o crime organizado utilizou um drone para jogar granada numa praça onde crianças brincavam (afinal, o profissionalismo de criminosos exige treinamento). Evento que, amplamente divulgado pela imprensa, não resultou em qualquer medida efetiva por parte do Estado. Já normalizamos o terrorismo com fuzis e granadas nas ruas. Sempre me pergunto como o Estado Pindoramense pode ser tão inepto ao usar o monopólio do poder da caneta. Leis são editadas – e, especialmente, interpretadas – invariavelmente em favor do criminoso. Em economia, as decisões do governo conseguem resolver, no máximo, demandas de curtíssimo prazo. Não há projeto de crescimento econômico para o País. O único projeto, governo após governo, revela-se na incansável busca pela reeleição de políticos. Em conversa com Deus, Mefistófeles revelou: “Sou parte daquela força que eternamente deseja o Mal, mas eternamente realiza o Bem” (embora, particularmente, creia ser absolutamente impossível ao Mal produzir o Bem). E não há a impressão de que a República Pindoramense faz exatamente o contrário? Deseja nosso bem (tão somente para não comprometer meu raciocínio, partamos dessa insuperável falácia), mas só nos faz mal? É o discurso da semeadura do amor – que tem como colheita a ignorância e seus frutos: atraso, fome, intolerância e violência. E se a vida imitasse a arte? E se o Estado pudesse nos desejar o Mal, mas realizasse simplesmente o Bem? Desejasse o mal, por exemplo, a fim de efetivamente privar a liberdade de criminosos, trazendo, com essa “postura desumana”, segurança aos cidadãos de bem? Diferente das tragédias de William Shakespeare, Goethe traça um final feliz para Fausto que alcança sua redenção espiritual. E se Pindorama imitasse Goethe? E se pudéssemos alcançar um final feliz para nossa tragédia?
*Coronel PM, advogado e escritor.
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