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Segunda-feira, 09 de Fevereiro 2026

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Provações do corpo e da alma

Colunista José Renato Nalini

Provações do corpo e da alma
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A vida terrena é um fenômeno transitório. Algumas décadas, não mais, estão reservadas a cada criatura. Passagem efêmera e frágil. Somos expostos a inúmeros riscos. Não sabemos quando será a despedida. Só temos consciência – embora nem sempre queiramos admitir – que ela chegará. Ninguém permanecerá na Terra para sempre.  

Nesse percurso a regra é sermos afligidos por vicissitudes. Enfermidades do corpo e da alma. Um mandamento essencial a todos nós é cuidar do corpo, o único de que dispomos. Só que os cuidados com a estrutura física dependem do cultivo de outras estruturas, as mentais. Para quem mereceu a graça da crença, é mais fácil resignar-se aos períodos em que a doença nos comprova a nossa fragilidade. 

A “Imitação de Cristo”, de Thomaz de Kempis, era leitura obrigatória para jovens de algumas décadas atrás. Há um capítulo em que ele disserta sobre a utilidade das adversidades. Lê-se: “Bom é passarmos algumas vezes por aflições e contrariedades, porque frequentemente fazem o homem refletir, lembrando-lhe que vive no desterro e, portanto, não deve por sua esperança em coisa alguma do mundo”. 

Passar por fases doentias nos conduz à humildade e nos preserva da ilusão de sermos onipotentes. O único refúgio está em Deus. Ninguém dispõe de todas as benesses e é imune a todas as desgraças. “Quem é que tem tudo, à medida de seu desejo? Nem eu, nem tu, nem homem algum sobre a Terra. Ninguém há no mundo sem nenhuma tribulação ou angústia, quer seja Rei, quer Papa. Quem é que vive mais feliz? Aquele, de certo, que sabe sofrer alguma coisa por Deus”. 

Nossa era é avessa a devoções e até a qualquer reflexão mais transcendental. O mergulho no consumismo egoísta, o império da matéria e do dinheiro produziram uma sociedade imersa em futilidades. Mas quem sofre é levado a considerar outra esfera de cogitações. Sente-se vulnerável, sabe não ser incólume às dores e reconhece mais de perto sua finitude. 

Para quem se autodenomina “cristão”, há deveres em relação aos enfermos. Está em Mateus, 25-36: “estive enfermo e me visitastes”. Visitar os doentes é um dever moral, antes de ser um dever cristão. É nas necessidades que se conhecem os verdadeiros amigos. Apesar da prática farisaica reservar a presença dos que celebram festividades, gostam de jantares, de celebrações nababescas, do consumo etílico e dos abraços superficiais, é imperioso considerar que os enfermos sentem necessidade do amparo fraterno quando das adversidades.  

Há muitas orações que podem e devem ser feitas para os enfermos. E há uma oração que São Camilo de Lellis elaborou para que o próprio doente procure se religar ao Criador no momento aflitivo em que se encontra: 

Senhor, coloco-me diante de ti em atitude de oração. Sei que me ouves, tu me conheces. Sei que estou em ti e que tua força está em mim. Olha para meu corpo marcado pela enfermidade. Sabes, Senhor, o quanto me custa sofrer. Sei que não te alegras com o sofrimento de teus filhos.  

Dá-me, Senhor, força e coragem para vencer os momentos de desespero e de cansaço. Torna-me paciente e compreensivo. Ofereço minhas preocupações, angústias e sofrimentos, para ser mais digno de ti. 

Aceita, Senhor, que eu una meus sofrimentos aos de teu Filho Jesus, que, por amor aos homens, deu sua vida na Cruz. Peço, ainda, Senhor: ajuda os médicos e enfermeiros a terem para com os pacientes a mesma dedicação e amor que São Camilo tinha. Amém”. 

Suportar o sofrimento com a certeza de que os desígnios de Deus não querem que as criaturas sofram, mas que eles são insondáveis para a pequenez humana, é um conforto que só as almas predestinadas podem fruir. Lembremo-nos dos nossos enfermos neste ano que se inicia e que tenham resignação e confiança de que seu destino está nas mãos de um Deus Pai, generoso e justo.  

*José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Geral da Academia Paulista de Letras.      

 

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