Não vos digo que perdoeis até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes.1
Essa lição de Jesus deveria calar fundo em nossa inteligência e bradar alto em nossos corações, pois que no convívio social cotidiano reiteradamente somos chamamos a praticar o perdão.
Essa questão é de tal relevância que, abstraindo-se das hostes da religião, adentra nos conceitos terapêuticos das ciências médicas e da psicologia, restando inequívoco que aquele que consegue exercitar o perdão consegue manter equilibrada sua sanidade física e mental.
Mágoas, culpas e ressentimentos devem servir de alerta porque prendem o ser no passado e o submete à dor da revolta, do revanchismo, enfraquecendo-o moral e fisicamente ocasionando, como consequência, transtornos de diversas ordens.
Ao contrário disso, aquele que consegue diluir as mágoas, as culpas e os ressentimentos que determinado fato lhe causou se reconcilia com seu adversário, mas, sobretudo, consigo mesmo, conservando seu coração tranquilo. É por isso que o perdão deve partir do coração e não simplesmente dos lábios.
Inegavelmente, o perdão faz as pessoas melhores física e moralmente. Fisicamente porque ao se livrar das paixões nocivas há a diminuição da possibilidade de se ver acometido por enfermidades, e, moralmente, porque propicia aquilo que chamamos de consciência tranquila, ou seja, paz de espírito.
Como o perdão é um catalisador que cria a ambiência necessária para uma nova partida, para um reinício2, sua prática envolve atividades reparadoras. Aliás, ao perdoarmos alguém estamos exercitando o autoperdão, uma vez que um é consequência do outro, porque somos com o outro aquilo que somos conosco mesmo.
Kardec ensina que “o verdadeiro perdão, o perdão cristão, é aquele que lança um véu sobre o passado, é o único que vos será contado, porque Deus não se contenta com a aparência: ele sonda o fundo dos corações e os mais secretos pensamentos; não se lhe engana com palavras e vãos simulacros. O esquecimento completo e absoluto das ofensas é próprio das grandes almas; o rancor é sempre um sinal de rebaixamento e de inferioridade. Não olvides que o verdadeiro perdão se reconhece pelos atos, bem mais que pelas palavras.” 3
Assim, benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros e perdão das ofensas, além de traduzir a acepção cristã da palavra caridade, demonstra que o homem bom deve procurar diminuir a distância que o separa daquele que ainda não compreendeu Jesus.
O perdão é a assepsia da alma, a faxina da mente e a alforria do coração, de modo que: perdoar os inimigos é pedir perdão para si mesmo. Perdoar aos amigos é dar-lhes prova de amizade. Perdoar as ofensas é mostra que se tornou melhor do que antes. Perdoai, portanto, meus amigos, a fim de que Deus vos perdoe...4
Mateus 18-22
2 Martin Luther King
Paulo Eduardo de Barros Fonseca