Creio que seja de senso comum que a humanidade vive tempos marcados por contraposições e conflitos nas relações humanas que criam duas realidades. De um lado, temos o estrondoso avanço científico e tecnológico que, sob vários aspectos, melhoram a qualidade de vida das pessoas. E, por outro lado, constatamos o esgarçamento das relações interpessoais criando um vazio existencial que tem levado um grande número de pessoas, de todas as faixas etárias, a graves crises depressivas e suas nefastas consequências. Diante desse quadro, há quem diga, e eu ouso concordar, que a humanidade vive uma época de duas realidades: do avanço científico e tecnológico e o vazio existencial. Nitidamente isso gera euforia, esperanças, oportunidades e, ao mesmo tempo, inquietação, medo e desesperança.
Fato é que vivemos em um momento histórico de grandes mudanças, de intensas e rápidas transformações. Mas, a ciência e a tecnologia têm de ser ferramentas para o bem viver e não motivo de introspecção, distanciamento, isolamento ou dificuldades com o lidar com os estímulos do ambiente externo.
É de lembrar que o ser humano é inteligente e gregário que, portanto, vive em sociedade, de modo que, na visão de Aristóteles, não pode suportar a ideia de estar só consigo - querer ser unidade e não individualidade. Isso porque, como também afirmou o filósofo, “o ser humano é uma unidade substancial de alma e corpo, em que a primeira cumpre as funções de forma em relação à matéria, que é constituída pelo segundo. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade, a inteligência, o pensamento, pelo que ela é espírito”.
Por isso é preciso ter claro que essas mudanças rápidas não podem desordenar o conteúdo moral construído ao longo de séculos e criar novos problemas, de modo que, portanto, devem ser preservados os preceitos basilares da sociedade.
Aliás, a sociedade global já passou por outros momentos de grandes transformações como, por exemplo, as mudanças conceituais trazidas por Jesus que, tendo afirmado que não veio para destruir as Lei e os Profetas, mas para dar-lhes cumprimento, causou um grande impacto na humanidade ao dar o alerta de que toda Lei e os Profetas dependem de que amemos à Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo (Mateus – 5:17 e 22:37 a 40).
Nesse contexto, no livro Pão Nosso, Emmanuel nos aconselha a adotarmos um comportamento mais proativo, e, como medida de harmonia espiritual, propõe lançarmos um olhar mais além, de contemplar mais longe (FEB, 2020, pg. 157-158, Francisco Candido Xavier). Assim, “transfere a observação para o teu campo de experiência diária e não olvides que as situações externas serão retratadas em teu plano interior, segundo o material de reflexão que acolhes na consciência. Se perseverares na cólera, todas as forças em torno te parecerão iradas. Se preferes a tristeza, anotarás o desalento, em cada trecho do caminho. Se duvidas de ti próprio, ninguém confia em teu esforço. Se te habituaste às perturbações e aos atritos, dificilmente saberás viver em paz contigo mesmo. Respirarás na zona superior ou inferior, torturada ou tranquila, em que colocas a própria mente.”.
Portanto, neste mundo em plena e rápida transformação, devemos cultivar hábitos saudáveis, de modo que os avanços científicos e tecnológicos sejam meios para ajudar no nosso bem-estar em vez de nos afastar dos verdadeiros valores da vida, notadamente, os morais e, portanto, espirituais.
Façamos, pois, um processo de autoiluminação, buscando o autodomínio, a partir de relacionamentos saudáveis com as pessoas do nosso convívio social, aprendendo a lidar com as diferenças para, reitero, usufruirmos das benesses disponibilizadas pelos avanços da ciência e da tecnológica, lembrando sempre que o amor é o instrumento hábil para tomada de todas as decisões.
Paulo Eduardo de Barros Fonseca