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Domingo, 28 de Junho 2026
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Padrastos da vida animal

Colunista *José Renato Nalini

Padrastos da vida animal
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            Nossa crueldade em relação à mata fez com que os animais remanescentes viessem para as cidades. Estes conjuntos de concreto, aço e vidro que são verdadeiras saunas, ajudam a cidade a multiplicar as ondas de calor e tanto prejudicam a saúde humana.

            Os pássaros que habitam as cidades tiveram de mutilar sua natureza. Alteraram seus hábitos, suas dietas e seus horários de atividade. Ocorre até mutação de seu ciclo reprodutivo.

            O sabiá-laranjeira, por exemplo. Para o ciclo reprodutivo, o seu canto precisa ser ouvido por potenciais parceiros. Como a poluição sonora é cada vez maior, ele tem de cantar cada vez mais cedo.

            Costumamos chamar os pombos, os ratos e os mosquitos de pragas. Mas nos esquecemos de que eles são originais da natureza. A professora Ana Paula Aprígio Assis, do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da USP, estuda esses fenômenos. A destruição da floresta e sua transformação em cidade faz com que os seres vivos da mata não consigam sobreviver. O extraordinário é que eles sobrevivem.

            É uma resposta da própria natureza. Ocorre uma adaptação, não apenas comportamental, mas também genética. As espécies que conseguem se alimentar com coisas diferentes, até os restos de lixo, vão sobreviver. Depois de continuar a viver, é preciso adaptar a capacidade genética de enfrentamento de novos desafios.

            Os mais resistentes são aqueles que sobrevivem e conseguem superar os desafios da urbanização. Para Ana Paula, ratos, camundongos e pombas têm uma relação “quase simbiótica” com os humanos.

            Animais quase extintos precisam se socorrer do ambiente urbano. É o caso da onça, espécie nativa brasileira, que de quando em vez é vista em estradas, rodovias e perto das cidades. Causando pavor e sempre encontrando alguém que se encarregue de matá-la.

            Precisamos nos educar para multiplicar os bolsões verdes nos centros urbanos. Não podemos perder nossa exuberante biodiversidade, que garante ainda a importância das aves na dispersão de sementes, das abelhas que polinizam e do incalculável benefício em favor da saúde mental dos humanos. nização das flores na cidade e do bem-estar promovido pelo contato humano com a natureza.

            Comecemos por não sermos padrastos da vida animal, porém carinhosos tutores das demais espécies. Afinal, todos somos animais.

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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