Estávamos todos isolados… por muito tempo durante o longo período crítico da pandemia. A tecnologia foi uma grande aliada para atravessarmos a demorada separação, as decorrentes dores, perdas e adversidades. Nós nos habituamos ao uso das multifunções dos celulares há duas décadas e assim, hipertrofiamos nos últimos anos sua utilização e todas as possibilidades reunidas para comunicação à distância… Apesar disso, estudos epidemiológicos recentes mostram os significativos desdobramentos traumáticos, em quadros depressivos, transtornos ansiosos e outros subsequentes do afastamento antinatural, imposto pelo passado próximo.
Contudo, agora podemos frequentar shows e outros eventos sociais impedidos no penoso distanciamento que todos atravessamos. Fui recentemente ao show do Coldplay e foi incrível ver/sentir a multidão de pessoas cantando, celebrando com alegria e se emocionando, ao vivo. Era como se todos quisessem aproveitar 110% de tudo! Paradoxalmente, grande parte assistia ao show por intermédio de seus celulares que captavam, gravavam imagens bidimensionais e sons precariamente, mas não eternizavam a própria vivência. A angústia da perda se relaciona com esse comportamento, as pessoas querem absorver cada segundo como se o aqui e o agora não fossem o bastante para suas experiências completas e respectivas memórias. A atenção estava voltada para a pequenina tela do celular e não para o evento que acontecia, porque afinal o enquadre deveria ser mantido. A justificativa é “não quero perder nada!” No entanto, a divisão da atenção torna a experiência pessoal mais superficial gerando memórias enfraquecidas.
Assistir a um show ou estar em qualquer evento exclusivamente através da tela do celular é um risco de alto impacto, porém quase invisível, de nos apagarmos e nos tornamos ninguém. A tendência de registrar as experiências num plano geral e não experimentá-las particularmente é imensamente perigosa no sentido das pessoas se tornarem multidões amorfas, sem a homônima, porém diferenciada “digital”, que torna o indivíduo um ser único, especial e criativo entre todos os seres humanos.
A incoerência não é proposital, mas vale a reflexão do quanto estamos mediando nossas experiências com potenciais vívidos por vídeos que não representam sequer uma fração da real experiência. Tais “memórias” serão armazenadas na nuvem, que para as pessoas ficarão literalmente nebulosas, vagas, os vídeos dificilmente serão assistidos mais de uma vez e, infelizmente, não serão incorporadas como genuínas experiências autobiográficas. Além disso, esses filmes gravados por incontáveis pessoas certamente serão muito Imagem: Julio Peres parecidos… e assim, as memórias que estamos colecionando, além de frágeis, são massivas, e influenciam diretamente quem somos, porque nós somos as nossas memórias.
As neurociências têm desvendado os “segredos” das memórias episódicas, declarativas, motoras, traumáticas, emocionais, sensoriais, verbais, de curto prazo e de longo prazo. As pesquisas nos ajudam a compreender que, em poucas palavras: as boas e saudáveis memórias permeadas por afetos positivos, sensações agradáveis e valiosos significados são melhor codificadas nos circuitos neurais de aprendizado que incluem o hipocampo. As memórias robustas, de longa duração, ou mesmo indeléveis, estão relacionadas ao fenômeno da somação hipocampal… o que é isso na prática? Quanto mais inteiros, presentes, abertos para a experiência direta (não mediada) conectados emocionalmente, sensorialmente em estado ampliado de consciência, melhor esta ocorrência será incorporada e lembrada… mais do que isso, ela fará parte da própria e peculiar identidade.
Não por mero acaso, as culturas milenares e respetivos mestres em práticas meditativas ensinam que, quando a conexão emocional, sensorial, em estados ampliados de consciência se manifestam integralmente, o hiper-foco decorrente da presença absoluta emerge e a experiência de fusão em plenitude é inesquecível, como um marco especialmente saudável na existência. Curiosamente, a construção das memórias de longa duração não dependem necessariamente do que está acontecendo “lá fora”, mas da abertura “aqui dentro” para a experiência que estamos vivendo, e por isso, memórias indeléveis podem também em momentos simples e singelos, desde que estejamos neles. Novamente, a ponderação sobre o “como” estamos e fazemos, e não “o que” estamos e fazemos é digna de aprofundamento…
As matrizes das nossas experiências particulares merecem ser profundamente/precisamente capturadas, e mesmo editando e reeditando tais conteúdos, essas lembranças serão partes significativas da vida de cada um. Lembramos que a origem da palavra Existir do Latim, "exsistere" significa emergir, revelar, levantar, consequentemente, pronunciar e cuidar de nossas vivências. Portanto, para nutrirmos o bem-estar genuíno e a saúde em nossas existências, ao invés de supostamente “viver por intermédio de”, o melhor a fazer, ou talvez como fazer, é: viver o presente na experiência direta com significado e consciência ampliada para melhorarmos continuamente, a qualidade de nossas memórias e a própria identidade!
Dr. Julio Peres
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