Muito conhecida por sua exuberante floresta e por seus caudalosos rios, a Amazônia também representa biodiversidade marinha. Trato nesta coluna da Amazônia Azul, a zona do litoral norte do Brasil situada sobre a plataforma continental. Nesta área temos um ecossistema de grande valor por ser único no mundo, são recifes de coral que sofrem influência da descarga de água doce do rio e por esta razão são chamados de corais de água doce. Embora exista uma imprecisão nesta denominação, visto que são corais de água salgada influenciados pela água doce rica em matéria orgânica do rio que desagua ali, ela expressa muito bem a originalidade destes recifes. Localizados a 100 km da faixa litorânea e distribuídos em uma extensão de 900 km os corais da Amazônia vão do Maranhão no Brasil até a Guiana Francesa.
Um recife de coral é um ecossistema formado a partir da atividade de organismos marinhos bioconstrutores que produzem e secretam carbonato de cálcio, são eles alguns corais duros, esponjas do mar, alguns tipos de algas e moluscos. Estes seres cimentam o leito do mar e criam estrutura que permite a fixação e o desenvolvimento de larvas de outros animais marinhos. Os corais formam os recifes.
Normalmente os recifes precisam de grande luminosidade para que as algas conhecidas como zooxantelas façam fotossíntese alimentando todo o ecossistema, mas no caso da Amazônia o comportamento coralíneo difere do observado em outros lugares do mundo porque a grande descarga de água doce rica em matéria orgânica diminui a penetrância da luz. Devido ao encontro de água doce e salgada, existe ainda variação da salinidade e pH o que, normalmente, os outros corais não toleram.
Os improváveis corais de água “doce” da Amazônia não abrigam as zooxantelas, aquelas algas que necessitam de luz para fazer a fotossíntese. A nutrição deste ecossistema singular se dá por meio de outras espécies de algas que são quimiossintetizantes e não fotossintetizantes. Para essas algas o aporte de matéria orgânica é um benefício porque tornam disponíveis os elementos inorgânicos que elas convertem em orgânicos por meio da quimiossíntese nutrindo todo o ecossistema.
Por abrigar algas diferentes daquelas encontradas nos corais mundo afora, os recifes da Amazônia Azul são encontrados em profundidades que variam de 35 até 130 metros enquanto os outros recifes não ultrapassam nunca os 40 metros de profundidade visto que precisam de luz para sua nutrição.
Uma vez compreendida a forma de nutrição das algas que compõe a flora do recife, é necessário entender a nutrição dos animais, a fauna do recife, que além de usarem as algas como alimento também precisam de matéria orgânica em suspensão na água do mar e de plâncton, organismos vivos flutuantes. A localização dos corais de água “doce” brasileiros é atravessada por uma corrente marinha que advém da Corrente Norte do Brasil, esta corrente traz esse plâncton e a matéria orgânica que nutrem os organismos da fauna do coral.
As sutilezas que regem esta forma de vida são inúmeras. Trata-se, portanto, de um ecossistema único e muito importante para a preservação de toda a biodiversidade marinha da qual depende a produção pesqueira regional. A ameaça de explorar petróleo nesta região não pode deixar de sensibilizar a todos. Essa ação pode gerar impactos negativos e, consequentemente prejuízos para o meio ambiente e os seres humanos.
* Bióloga, mestre e doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo