João Pedro Paro e José Renato Nalini
Duas gerações se encontram para dialogar sobre alguns dos grandes clássicos das ciências sociais brasileiras, mediante exame daquilo que o Brasil parece ser. Ou seja, o encontro de seus sinônimos.
João Pedro Paro, jovem doutor pela USP, atualmente exercendo uma instigante função de elaborar o aparato jurídico para a cibersegurança de grandes empresas e José Renato Nalini, veterano magistrado e educador, que presidiu o TJSP e foi secretário da Educação do Estado de São Paulo, se propuseram a revolver antigas tradições, comparando-as com atuais aflições, em busca de futuras decisões.
Na primeira parte desse conjunto de ensaios, João Pedro se encarregou dos capítulos Estatisticamente: uma incursão no dataísmo, as raízes e o povo: Carnaval, Malandros e Heróis na Era Virtual, Políticas Identitárias: o paradoxo entre minorias e individualismo, Corrupção: um novo mindset à vista e escolhas privadas: quais são os impactos públicos.
Enquanto isso, José Renato dissertou sobre Formação do Brasil contemporâneo: fake News, disrupção e perplexidade, cidadania desregulada: entre o declínio humanista e o ocaso progressista, Direito: qualidade da democracia e virtudes da gestão ética, educação: os desafios da coragem cívica e escolhas públicas: quais são os impactos privados?
A segunda parte inicia a reflexão com o questionamento : são possíveis resultados diferentes?
Aqui é Nalini quem começa com o tradicional: cânones, dogmas e doutrinas, prosseguindo com meu caro Watson: a revolução jurídica da inteligência artificial, homo faber x homo ludens: como o Brasil abraça os polímatas, efeito Forer – validação subjetiva: crenças, expectativas ou hipóteses e interetariedade: a necessária cooperação intergeracional.
João Pedro prossegue com Gerações: Hippies, Yuppies e Millenials, conectados: cookies na internet e o backup mental, retropicalização: glamour, gourmet e menos valia nacional, elogio ao acaso: a hipocrisia social das estrelas e o pedigree do brasileiro: entre Dionísio e Apolo.
A conclusão de ambos é sintetizada na frase uma gramática sem fim.
Há imenso material a suscitar análise por parte daqueles que estranham algumas situações bizarras num Brasil que parece não ultrapassar sua adolescência, permanecendo na melancólica situação de encarnar o eterno “pais do futuro” e se satisfazendo com a condição de exportador de commodities.
O encontro geracional produziu uma obra que pode interessar a um espectro amplo de preocupados com os rumos deste Brasil que, já imerso na desafiadora realidade da Quarta Revolução Industrial, ainda preserva um mosaico de fenômenos colidentes, eis que situados em épocas cronologicamente muito distanciadas entre si.
A originalidade dos ensaios, a partir de sua provocativa denominação, prenuncia farto material para intensificar um diálogo urgente e pelo qual o Brasil está a clamar enfaticamente: o que nos espera nos próximos anos? O que se pode fazer para persuadir o brasileiro de que o pertencimento à sua Pátria é o passo inicial para construir a Nação dos nossos sonhos?
Justiça: uma questão de educação
José Renato Nalini
O autor, com 44 anos de experiência no Universo Justiça, concluiu que Justiça é também uma questão de educação.
Uma sociedade educada optaria por solucionar suas controvérsias mediante o diálogo, sensato e maduro, sem recorrer ao combalido sistema judiciário, que chegou a ter mais de cem milhões de processos.
Isso sugere ao restante do planeta que o brasileiro é o povo mais beligerante sobre a face da Terra.
A reflexão passa pelo conceito de Justiça, especula sobre o que o brasileiro sente em relação à Justiça e propõe como é que a Justiça deveria ser.
Examina a hipótese de educar a Justiça para todos os níveis, a começar pela educação jurídica propiciada a esse número incrível de Faculdades de Direito: o Brasil possui, sozinho, mais escolas de direito do que a soma de todas as outras existentes no restante do mundo.
Depois de incursionar sobre a educação dos juízes, dos promotores, dos defensores públicos, dos quadros da polícia, da advocacia, dos delegatários extrajudiciais, também aborda como deveria ser a educação do estudante de direito, do estagiário e do servidor da mídia.
E a mídia? Ela está educada adequadamente em relação aos assuntos concernentes ao complexo mundo do equipamento estatal comumente designado como Justiça?
Passa pela educação para a revolução industrial e chega ao desafio de uma educação para o resgate dos valores, muitos deles em acelerado declínio numa sociedade egoísta, narcisista, consumista e insensível, que se utiliza do Judiciário para afligir ainda mais o aflito ou para obter vantagens eticamente discutíveis, para ser eufemista.
É instigante o percurso de alguns exemplos da disfuncionalidade da Justiça, como o caso dos pesquisadores científicos, a expropriação da Serra do Mar, a indústria do dano moral, a situação de pobres prefeitos às voltas com a volúpia da ação pública por improbidade, a loteria dos plantões, o juiz cobrador de impostos, a circunstância de prendermos muito e de prendermos mal, justiça no varejo e injustiça no atacado, o protagonismo exagerado do Ministério Público, os mil pesos e mil medidas da Justiça laboral, a regra do “podendo complicar, por que facilitar”?, a justiça lotérica, alguns são mais iguais e a reinvenção da roda.
O autor termina por indagar: Justiça é ou não uma questão de educação? Quem deve responder é o leitor, principalmente aquele que já experimentou uma frustração derivada de dolorosa experiência judicial.