O ano era 2001. À época, servia no recém criado Ministério da Defesa em Brasília. Por conta da súbita saída do comandante do 1º Batalhão da Aviação do Exército, que fora nomeado para outra comissão, fui designado para substituí-lo. Foi, no momento de transição, quando ainda exercia minhas funções na Divisão de Adidos Militares no Ministério, que iria receber um ensinamento que me impactaria para toda vida.
Sem que esperasse e que pudesse imaginar, ao escovar meus dentes no toalete do 8º andar do Ministério, fui abordado pelo general Roure, nada mais nada menos que o Secretário de Política e Estratégia e Assuntos Internacionais do Ministério, a quem o Departamento de Assuntos Internacionais, ao qual pertencia, era subordinado.
Ao me identificar ele me perguntou se era eu que estava indo comandar. Ao me desejar sucesso no Comando, ele falou que minha carreira havia me preparado para cumprir a missão operacional que cabia à minha unidade, mas que havia um aspecto que eu deveria ter total atenção. Não com essas palavras, ele me lembrou: "Você vai trabalhar com pessoas, muitos são pais com esposa e filhos. Ao fim do dia eles deverão depositar suas cabeças no travesseiro tendo a convicção de que estavam sendo tratados com dignidade. Toda decisão que você tomar impactará no soldado e em sua família."
Por mais preparado que estivesse, o lembrete feito por aquele importante chefe militar, nas condições em que aconteceu, me mostrou que, sob esse aspecto, não poderia falhar e foi o que me permitiu enxergar que atrás de cada farda existia uma pessoa que deveria ser respeitada com todas as suas qualidades e defeitos, fortalezas e fraquezas.
Assim procurei fazer e, lógico, como ser humano que sou, nem sempre obtive êxito. Tenho a consciência que com alguns falhei, pressionado pela missão a cumprir ou mesmo por falhas de julgamento. Creio que dentro de minhas limitações consegui na grande maioria das vezes seguir aquela valiosa recomendação.
Na hora ele não me disse, mas vim a descobrir que essa forma de agir me auxiliaria e muito no exercício da liderança. O militar, respeitado como ser humano, marcha a seu lado em qualquer situação. Dos vários atributos exigidos pela liderança este tem grande relevância.
Já fora da Instituição Exército, nas oportunidades que tive de liderar grupos, estive sempre atento a esta questão. Estabelecer um ambiente de diálogo, valorizar o trabalho feito, bem orientar antes de repreender e escutar mais, são atitudes essenciais para, independente do posto que ocupam, fazer as pessoas sentirem-se dignas.
No ambiente de trabalho, a atenção, o sorriso e um bom dia têm um efeito terapêutico e motivador.
General Diniz
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