A história se repete: o cabo Júlio César da Silva Costa, estava dentro de uma viatura da Polícia Militar, em Cubatão, quando recebeu um tiro na cabeça. Não era uma abordagem, nem uma ação. Deixa, com dor eterna, um filho de 12 anos. Ninguém, de lugar algum, se importou. Nem mesmo uma sempre omissa comissão de direitos desumanos.
Os andarilhos da cegueira deliberada, usando muletas ideológicas, não ligam quando bandido ataca e mata. Preferem, diante de vítimas de assassinato como foi o cabo Júlio, que os policiais é que devem ser vigiados. Sempre de olho na Polícia, disfarçam-se na categoria de vitimistas e “especialistas”. Não maquiam o rosto com óleo de peroba. A maquiagem serve para acobertar cinismo, indiferença, hipocrisia, descaso, má fé, ignorância, sofismas letais em formas múltiplas. Serpentário venenoso.
A Polícia Militar é alvo preferencial da turba. Promotores e juízes, que custam muito caro (o custo-benefício para a sociedade é deficitário), embora comam à vontade no prato da PM. A casta é super bem paga e cheia de penduricalhos. Já o salário dos policiais militares é ínfimo. Câmeras para os policiais. Para tudo o mais (bandidagem inclusa), regalias inconcebíveis.
Sinto-me na obrigação de passar a palavra ao meu amigo Valmor Saraiva Racorti, coronel comandante dos Batalhões de Choque da Polícia Militar. Ele classifica a fixação em câmeras como “fetiche da vigilância sobre quem vigia”. Está coberto de razão. “Seguimos ignorando a presença efetiva do Estado antes que o crime imponha suas próprias regras”, diz. Porque, com a autoridade de quem põe a mão na massa, a materialização do crime está no “controle de territórios, na exploração econômica, no exercício do medo e na imposição de uma ordem paralela”. Observa: “a criminologia contemporânea descreve com clareza, por meio da Teoria do Controle Competitivo, que da ausência do Estado, surgem estruturas criminais capazes de exercer funções típicas de governo”, pois “onde o Estado não chega, o crime se instala”. Não é preciso dizer mais. O coronel Racorti disse tudo. O desserviço generalizado vitimiza a sociedade. Indaga o oficial superior PM: até quando? A resposta teria que vir de quem deveria fazer e não faz, crítica mas se omite, não vê porque não quer. São culpados identificáveis. Perdão, cabo Julio, pelo que o pecaminoso e perverso sistema da sociedade fez com você.
*Jornalista e escritor
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