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Domingo, 12 de Abril 2026

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O juiz sem rosto

Colunista *Percival de Souza

O juiz sem rosto
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Nada se muda no mundo do crime só por meio de vocabulário. Palavras usadas apenas como tapume são artificiais.

Por essa e outras razões, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina criou uma Vara Estadual para casos de organizações criminosas, composta por cinco magistrados não visualizados em videoconferências, com distorção de imagem e voz. Juízes sem rosto.

Os especialistas em sexo dos anjos já discutem a novidade, falando num dialeto afastado do povo sofrido. Tanto é que no mês que vem entra outra vez em discussão, na Comissão e Justiça da Câmara Federal, o projeto de emenda constitucional para a área de segurança, com um ridículo ponto a mais: longo sigilo (?) nas argumentações utilizadas, em nome até da “soberania nacional” (?). Nada se pode saber do alicerce para embasar o projeto já inútil por natureza.

Juiz trabalhando camuflado? Na década de 60, na Colômbia, magistrados foram assassinados pelo comando do tráfico. Foi o berço para a proteção da identidade. Em março de 2003, na cidade de Presidente Prudente, o juiz Antonio Machado Dias foi metralhado à saída do Fórum, a mando de Marcola, chefão de uma facção criminosa. Hoje, o juiz é um busto no Tribunal de Justiça paulista.

Mas de que falamos? Da vida humana, que não é uma figura abstrata, alvo constante de ativistas do crime organizado. Panacas de plantão insistem em preferir a sociedade desorganizada, tornando-a cada vez mais vulnerável. Observe: em operações especiais contra o crime, os policiais usam capuzes, exatamente para que não sejam vitimizados, pois muitos deles são caçados e mortos por vingança dos criminosos. Giovanni Falcone, o juiz anti-máfia assassinado na Itália, fazia audiências com os réus trancados numa jaula. Desumano? Não, necessário.

O crime em grau sofisticado parece um polvo. O molusco possui oito braços fortes, os tentáculos, para capturar as presas. Lança tinta para se proteger e muda de cor. Comparemos: faz capturas por toda parte, inclusive institucionais, infiltra-se, usa camuflagem e domina. É tão aterrador que o ministro Gilmar Mendes, do STF, está à frente de uma investigação que liga os polvos-facções a organizações criminosas, por meio de farta distribuição da verba de emendas parlamentares para prefeitos cearenses diretamente ligados ao PCC. Um novo nível de poder. Estima-se o montante em R$ 120 milhões.

Sendo assim, melhor ocultar o rosto do que usar máscaras.

*Jornalista e escritor

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