O túnel do tempo é repleto de muitas colchas, costuradas pelos retalhos das saudades dos amigos que já partiram nas corporações policiais. Como já sou um dinossauro nessa praia, lembro-me de fases da eterna perseguição policial ao cavernoso mundo do crime incessante.
A nostalgia traz à memória estilos operacionais, marcas inimagináveis de outros tempos e uma evolução impressionante da criminalidade, sempre mutante, onde a Polícia passou a ser cerceada cada vez mais, principalmente após os chamados anos de chumbo. É um tipo de rancor, que parece não tem fim. Hoje, posso dizer, olhando para todo o eixo criminal, que a prisão, onde pulsa o controlador crime organizado, de dentro para fora e de fora para dentro, que o sistema prisional é uma mãe que gera muitos filhos. Podemos verificar pelos altíssimos níveis de reincidência. A persecução penal, caríssima e cheia de penduricalhos, é deficitária a tal ponto que os fatos das ruas não encontram respaldo na lei e as normas legais deixaram de corresponder à realidade.
Que fazer? Tenho dificuldades em responder pelo que vi no passado, que injeta fatos no presente e prevê o futuro. Sabemos como foi, como é, como poderá ser. Fatos recentes mostram uma prática de crime mais do que organizado, estruturado com infiltração em várias camadas financeiras, deixando claro que comandos criminosos sabem muito de economia, investimentos e fragilidades processuais. É muito mais do que organização criminosa: domina vários setores e escancara uma verdade terrível: para o combate, temos que mudar urgentemente de métodos. Os atuais estão sendo derrotados. O modo institucional de agir ficou fora de compasso. Precisa atualizar-se urgentemente, pois os mecanismos disponíveis, totalmente desprezados pelos infratores, que são cada vez mais ousados. Metodologias burocráticas não funcionam. O crime é dinâmico, criador, desafiante. Não há mais tempo a perder, achando que com papel e caneta tudo possa ser tipificado e resolvido.
O estilo “seguir o dinheiro”, adotado por Eliot Ness, do FBI, contra Al Capone, está revigorado. O dinheiro é sempre a mola mestra: para obtê-lo, os criminosos estão dando enormes passos à frente, exigindo inteligente contraponto de especialidades, estruturas, intercâmbios, informações e talento para investigá-los. Não existe bola de cristal. Ou seja: precisamos correr atrás para conseguir chegar na frente.
*Jornalista e escritor
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