Aproxima-se a hora da onça beber água, no rio em formato de urna. Precisa saciar a sede, embora das margens possa ver que a fonte não está límpida e nem plácida. Ausência de regras e normas é anomia. Podemos dar outro nome, como definiu o escritor Machado de Assis: espertocracia. O mundo dos espertos. A dona onça (não o bar) acha ruim. O felino tem toda razão ao reclamar. Estamos aprisionados numa sinuca, sem giz no taco para encaçapar, faltando menos de oitenta dias para a onça chegar ao rio. Pesquisadas, as águas turvas revelam que muita gente não quer saber deste ou aquele candidato ao Planalto, por causa dos conflitos institucionais. Os Poderes estão decepcionantes por causa deles mesmos. O povo está exausto. Não se sabe com precisão como a onça irá reagir. Mas sabemos que ela, com muita sede, não está gostando.
Na espertocracia, a lei do jeitinho está sempre em movimento. Não está interessada em apresentar projetos concretos para soluções, preferindo doutrinar com espectros políticos e ideológicos, dos quais a população está farta, à exceção dos optantes que se curvam diante da cegueira deliberada.
No que toca muito de perto a todos nós, e disso a onça não aprecia, fica a segurança pública. A Polícia é ignorada, mas muito cobrada, como se o assunto fosse coisa para somente ela resolver. O Estado cruza os braços na varanda de Pilatos e, numa das mais recentes manifestações por escrito, “especialistas” que navegam sem rumo pela Academia, apresentaram - outra vez - alguns devaneios em forma de sugestões com pretensão de “resolver” (?) a questão. Inexplicavelmente, apresentam suas teorias construídas no vácuo, sem consultar a ninguém da Polícia. Isso mesmo: ninguém! Ignoram o óbvio: é a Polícia, única presente 24 horas nas ruas, que tem o primeiro contato com o criminoso; promotor come no prato da Polícia para oferecer a denúncia; juiz se baseia fundamentalmente em inquéritos (policiais) para decidir; a rede prisional recolhe quem desfila pela passarela do crime e é condenado; julgamento por autoria de homicídio se faz por tribunal do júri, soberano para decidir em cima do que a Polícia apurou. Os experts em ciências ocultas e letras apagadas, os “çábios” - como escreveria o jornalista Elio Gaspari - são cada vez mais irritantes.
Eis o resumo de tanta decepção, desilusão e ceticismo. Direito é interpretação reta e justa. Aí está.
*Jornalista e escritor
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se