Espera-se muito dos informantes. Há uma diferença entre eles: os do bas-fonds, subterrâneo maldito, e o desculpável tido como chique. O segundo é admissível, inerente à moral da profissão jurídica. Deveria haver entre eles um tronco comum na ética dos princípios fundamentais da Justiça. Mas não: uma é premiada, outra é punida. A chique veste o manto da “delação premiada”. A outra, sem condescendência e regulada pela implacável “Lei do Cão” - quando alguém conta o que não deveria contar, sendo punido com a morte.
A dialética é curiosa, pois os propósitos dos fragmentos da realidade são os mesmos. No caso chique, fala-se em criar um código de conduta, rotulado de “autocontenção”, para magistrados do mais alto grau. Não há, porém, denominador comum entre eles. O súbito colaborador (ele precisa ser convencido a falar) se dispõe a abrir o bico desde que seja recompensado. Abre o jogo e suas denúncias precisam de comprovação. Não basta falar. Ganha a garantia de reduções punitivas. Um negócio: dá lá, toma cá. Há quem seja contra isso na hora de defender. Também temos os que são a favor e, dependendo dos honorários, mudam radicalmente de posição. Examinemos, também, os sem projeção social, habitués no mundo do crime. Para esses, não existe “delação premiada”. Dominam, isto sim, as qualificadoras humilhantes de alcaguete, dedo-duro ou X-9. As penas vão de corte da cabeça, morte e cadeado nos lábios, pixações com tinta nas nádegas. De um lado ou de outro, não se pode chamar a tudo isso de “ética”, filosoficamente outra coisa.
É um jogo. Hipócrates é o patrono da ética na medicina, daí o juramento dos formandos. Nada tem a ver com ética revelar algo quando alguém faltou completamente com seus deveres. Coisas bem diferentes. No mundo sem prática de irregularidades, até penais, existe o segredo de confissão, quando alguém assume compromisso de não contar a ninguém o que ficou sabendo em circunstâncias bem íntimas. Normalmente, condutas como, por exemplo, a confissão de pecados nas igrejas - segredo entre sacerdote e confidente. No mundo do crime, informar – alcaguetar, dedo-durar – é considerado execrável. No mundo em tese sob leis, o ato é visto como salutar, benéfico, regulado por um pêndulo. Um poder ser premiado, como já está no nome do que faz. Outro é punido e empurrado para a vala comum do esquecimento.
Tudo provoca abalos. Mas isso é outra história.
*Jornalista e escritor
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