Nascer de novo. A discussão sobre essa questão remonta entre c.1100-c. 500 a.C., figurando como um dos princípios fundamentais em várias tradições filosóficas e religiões, mas, com um conceito complexo e até mesmo multifacetado.
Estudos apontam que filósofos como Ferécides de Siro, Pitágoras e Platão, dentre outros, em suas investigações acerca da dimensão essencial e ontológica do mundo real, adotaram a ideia reencarcionista, a ponto de se dizer que esse conceito era aceito rotineiramente em toda antiguidade. Aliás, em suas obras, como por exemplo em “A República”, Platão enfoca e divulga a tradição de contar sobre várias vidas, usando exemplos para evidenciar a doutrina da transmigração.
Nas religiões, enquanto sistemas de crenças, práticas e rituais que conectam os seres humanos ao sagrado, desde o Egito antigo e, tal como, no hinduísmo, budismo, jainismo, espiritismo e em algumas vertentes do judaísmo, tem-se que a transmigração ou reencarnação é um princípio central que se relaciona com o processo de evolução espiritual.
Oportuno lembrar que o cristianismo primitivo defendia essa ideia até que o Imperador romano Justiniano, em 553, no Concílio de Constantinopla, por questões pessoais, teria determinado que a doutrina da preexistência do espírito, ou seja, a existência do espírito antes da concepção do corpo no útero mater, fosse proscrita.
Mas, apesar disso, segundo estudiosos, algumas passagens do Novo Testamento enfocam e acolhem a ideia de reencarnação, tal como o contido em em João 3-3 quando Jesus diz que “é necessário nascer de novo para ver o reino de Deus.”
Se esse é um tema místico, extenso e complexo que requer um estudo profundo, é inequívoco que a crença na sobrevivência da consciência após a morte do corpo físico é comum e tem permanecido ativa em quase todas as civilizações na história da humanidade.
Mais recentemente, a partir dos anos 60, estudos científicos sobre essa temática apresentam resultados favoráveis ao conceito de reencarnação, tais como as pesquisas feitas pelo psiquiatra Ian Stevenson, na Universidade de Virginia, EUA, com dados de mais de 3000 casos investigados, ou, ainda, nos anos 90, pelo engenheiro e parapsicólogo Hernani Guimarães Andrade que, em sua vasta obra, admite a interação entre as matérias física e a espiritual, a sobrevivência do espírito e a reencarnação.
Muito singelamente é possível afirmar que o conceito de reencarnação se concretiza na crença de que a essência não física de um ser vivo, seja alma, espírito ou consciência, renasce em um novo corpo físico após a morte, ou seja, um mesmo espírito serve em inúmeros corpos físicos em sua caminhada espiritual, o que, inclusive, explica a diversidade de destinos e de aptidões de cada indivíduo.
Enfim, crer na possibilidade de nascer de novo, além de explicar as diferenças entre todas as pessoas e, sobretudo, a justiça divina, fundamenta a perspectiva de futuro e da evolução moral e intelectual de todo indivíduo, sem a qual todos ficariam aprisionados ao mero materialismo e na busca dos prazeres terrenos.
Ao contrário disso, refletir e admitir a hipótese de existências sucessivas consolida a ideia da justiça divina em relação aos homens, sobretudo, aqueles em condição moral inferior, do mesmo modo que explica o futuro e fundamenta a esperança ao oferecer a possibilidade de reparar erros passados viabilizando a evolução espiritual, portanto, moral de toda pessoa.
Assim, conforme consta na lápida de Hippolyte Léon Denizard Rivail, também conhecido por Allan Kardec: “naître, mourir, renaître encore et progresser sans cesse, telle est la loi", ou seja, "nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a lei", tantas vezes forem necessárias para o nosso aperfeiçoamento espiritual.
*Governador 2006/2007 do Distrito 4430 de Rotary International.
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