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Não bailamos em terra batida

Colunista Otávio Santana do Rêgo Barros

Não bailamos em terra batida
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No mês passado jornais noticiaram a visita ao Brasil do almirante Craig S. Faller, comandante do Comando Sul dos Estados Unidos da América. O seu objetivo era se despedir por término de missão e passagem para reserva. Os americanos dividem um mundo em áreas de interesses estratégicos, sendo esse comando conjunto aquele que abarca seus interesses na América Latina. Essas ligações têm o propósito de manter vínculos políticos, técnicos e profissionais, o que exige conhecer as Forças Armadas de todos os países com os quais mantêm relações diplomáticas.
Ao ser questionado sobre o papel das Forças Armadas quando transcende o emprego como braço bélico, o almirante afirmou que militares profissionais defendem constituições, não líderes. No mesmo diapasão, reforçou que elas devem ser apolíticas. E reconheceu firmemente essas posturas nas Forças Armadas brasileiras.
Não me surpreendeu, visto que pronunciamentos protocolares que envolvam a servidão de soldados se regem por evitar divergências, sendo a camaradagem o principal atributo das falas. Preservam com isso a serenidade da diplomacia militar. Justifica-se a declaração pelo alinhamento dos militares americanos aos pressupostos acadêmicos, formulados pelo professor Samuel Huntington, nos quais advoga o controle civil objetivo, que se configura pela subordinação do estamento militar ao poder civil, delimitando as áreas de responsabilidade e o fluxo decisório.
Nos últimos meses, a sociedade brasileira vem se deparando com preocupações anormais sobre o papel das nossas Forças Armadas e quais caminhos elas seguirão diante dos repetidos testes de institucionalidades a que são submetidas. A substituição intempestiva dos comandantes de Força, em março passado, trouxe apreensão pela inoportunidade aos olhos da sociedade. Quaisquer que tenham sido as razões, as instituições seguem no seu papel como instrumento de Estado. Servas da sociedade e subordinadas tão-somente à lei maior representada pela Constituição da República, reforçando, portanto, a percepção do almirante Craig.
As pesquisas demonstram o acerto dessas posturas. A elevada confiança da sociedade nas suas Forças Armadas foi referendada em bases estatísticas e delimitada em todo território nacional. Refiro-me a mais recente investigação do Instituto Datafolha publicada também no mês passado: (http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2021/09/24/avali24968insti94782congress8472.pdf) - link em 27.09.21. E ao trabalho da Fundação Getúlio Vargas (FGV) denominado Índice de Confiança na Justiça (ICJ):(http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/30922) — link em 27/9/21.
Em ambos, ainda que tenham se valido de metodologias distintas, os militares lideram no índice de credibilidade, essa atribuída ao trabalho incansável de conquistar, por ações, o coração e a razão do povo brasileiro. Não é uma postura de moda. Por anos, em circunstâncias distintas e sob governos distintos, representamos valores caros ao povo brasileiro que se transformam em saldo positivo para momentos de desgaste de imagem. O Centro de Comunicação Social do Exército conduziu, há alguns anos, uma pesquisa ainda mais abrangente sobre a imagem da Força. Obteve dados de peso que confirmavam esse perfil e indicavam pontos de oportunidade de melhorias a serem avaliados.
Por certo, isso nos orgulha ao tempo que nos impõe mais encargos éticos e morais. Indica-nos que estamos trilhando acertadamente a avenida do bem-servir. Fortalece-nos para declinarmos de qualquer convite para bailarmos em salão de terra batida, com parceiros que pisam em nossos pés, e que depois contam vantagens pela beleza da dama a amigos de bar. A história, algumas vezes, não foi justa para conosco. Contudo, aprendemos com ela.
É de todo interessante que os meios acadêmicos, políticos e de imprensa se debrucem com mais ardor a debulhar essa imagem tão positiva, qualificando-se para compreender o legado que construímos. O amadurecimento pelos acertos e erros do passado impede que o momento político através do qual marchamos e seus agentes impulsionadores, nos levem a afrontar a estabilidade, nem mesmo o soldo indevido. Que fique claro, não se avassala um Exército profissional no intuito de vesti-lo como guarda pretoriana e dela usufruir a seiva da confiança. Não assumiremos esse papel e pugnaremos contra investidas. Elas serão sempre frustradas.
Paz e bem!

*General de Divisão R1

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