Depois de concordata, o nome hoje adotado é recuperação judicial. Não importa muito, porque embute a ideia de anomia, a ausência de regras e normas - segundo Durkheim, o pai da sociologia. É o que assistimos hoje em Brasília-Babilônia, onde relevâncias já foram políticas, administrativas e agora, para nosso espanto, também são institucionais. Impressionante como dominadora corrupção gravita, sem pudor e de forma ecumênica.
No último capítulo (será?), verdadeiro round, ficaram no tablado Mendonça-Tyson e Mendes-Maguila, desferindo golpes, aparentemente leves, mas pesados conforme a categoria dos pugilistas togados. O primeiro, para não ser nocauteado, viu-se obrigado a dizer que não temia a morte e nem ser magistrado, referindo-se a uma máfia perigosa que o está ameaçando. O segundo, adversário num novo tipo de ringue e opositor ferrenho do primeiro, que é relator de um processo cabeludo que mantém no cárcere o senhor Vorcaro, artífice-chefe do banco Master, aquele que alimenta muitas polpudas contas correntes. Primeiro: mantenha-se a cana dura. Segundo: que seja solto o encanado. Impossível conciliar isso com malabarismos jurídicos e semânticos. Desculpem os felinos, mas gatunagem é gatunagem. Ponto. Objeto da nova celeuma, o polvo-master esticou seus tentáculos até um senador da República, líder do Governo na Câmara Alta, envolto em lençóis tão maus que exigem explicações convincentes. Valores brutos recebidos por hipócrita segmento ideológico, que sem constrangimentos mete a mão na cumbuca, como se agisse estoicamente em “defesa dos pobres”.
O boxeador mais agressivo afirmou que o oponente estaria usando métodos com “vezo persecutório”, com “uso indevido do instrumental em processo penal”. Data vênia, falar desse modo é indevido e antiético, ainda mais de um colega para outro.
A brutalidade jurídica leva ao senador atingido. No Senado romano, eles vestiam togas brancas de lã, roupas simbolizando homens livres, portadores de virtudes, imaculados. Tão puros que não titubearam em assassinar Júlio Cesar. Estupefato ao ser apunhalado, perguntou a um deles: até tu, Brutus?
Estamos em plena fase do questionador “até tu”. Não passa pela nossa cabeça imaginar que alguém fosse capaz de fazer o que fez. Mas fez e fazem. Circunstância que nos empurra para uma emboscada cívica: o que fazer na hora de escolher o meno male na hora de votar. Até você, bruto?
*Jornalista e escritor
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