Mais uma vez, vale recordar o diálogo meliano narrado por Tucídides: os fortes fazem o que podem; os fracos sofrem o que devem...
Há poucos dias, o governo anunciou mais um corte no orçamento do Ministério da Defesa. Dos R$ 15,5 bilhões previstos este ano como despesas discricionárias, R$ 4,4 bilhões foram bloqueados, o que equivale a 28% do total.
A notícia foi um balde de água fria na caserna. Semanas antes, divulgou-se que os projetos estratégicos das Forças Armadas receberiam aportes extraorçamentários para garantir suas continuidades.
Os técnicos do tesouro dirão que são recursos distintos. Tecnicamente, é verdade. Contudo, fica a sensação de o governo dar com uma mão e tirar com a outra.
A questão, porém, vai além de um corte específico. O problema Defesa Nacional deixou de ser conjuntural. Tornou-se estrutural.
Mudam os presidentes, os ministros, os parlamentares. O resultado permanece o mesmo: promessas de aporte seguidas por adiamentos, cortes e incertezas.
E essa realidade não é atribuível a uma corrente ideológica específica. Boa parte da sociedade compartilha a percepção de que a Defesa é importante, mas pode sempre esperar mais um pouco.
Em uma provocação bem-humorada, pergunto, caros leitores, vocês estariam dispostos a contribuir diretamente para a Defesa Nacional? Afinal, ofertam para igrejas, para ações filantrópicas, para parentes em dificuldades.
Caso positivo, sugiro também contratarmos um marqueteiro famoso para conduzir uma campanha, cujo mote seria: Doe R$ 1,30 e salve o país.
Para efetiva concretização desse intento, o PIX do Ministério da Defesa seria massivamente divulgado na imprensa tradicional e nas mídias sociais.
Claro, é uma piada. Contudo, ela esconde uma reflexão séria. Quanto custa manter a capacidade militar de um país como o Brasil?
Quando dividimos o orçamento anual da Defesa - cerca de 1% do PIB - pela população do país, chegamos a um valor diário per capita inferior ao preço de um cafezinho, de uma garrafa de água ou uma pipoca no sinal.
E é com essa quantia que se espera proteger 17 mil quilômetros de fronteiras terrestres, 8.500 quilômetros de costa, 22 milhões de Km2 do espaço aéreo, infraestruturas críticas, bem como riquezas estratégicas que despertam crescente interesse internacional.
O paradoxo é evidente.
Queremos proteger a Amazônia Verde ou Azul? Combater ilícitos transnacionais? Fortalecer a Base Industrial de Defesa? Ampliar a influência do Brasil no mundo? Enfrentar organizações criminosas tipo PCC ou CV?
A resposta da maioria dos brasileiros certamente será sim. Então, qual a dúvida?
Enquanto isso, o mundo segue volátil, incerto, complexo e ambíguo (VUCA).
Na recente conferência de segurança realizada em Cingapura - Diálogo de Shangrilá -, um contraste me chamou a atenção.
De um lado, o Ministro da Defesa anfitrião destacou a importância do diálogo e dos mecanismos multilaterais de cooperação.
De outro, o Secretário de Guerra dos Estados Unidos alertou que o momento exige menos discursos e mais aprestamento para possíveis conflitos.
A história nos recomenda prudência. Conversar é sempre a primeira opção.
Mas isso não elimina a necessidade de poder militar. Mais uma vez, vale recordar o diálogo meliano narrado por Tucídides: os fortes fazem o que podem; os fracos sofrem o que devem.
A tradição da diplomacia brasileira é sobejamente reconhecida. Nossa vocação pacífica é inquestionável. Nosso compromisso com a solução negociada dos conflitos permanece inalterado.
Ainda assim, boas intenções não substituem meios militares credíveis. Discursos não monitoram fronteiras. Canetas Montblanc não protegem plataformas de petróleo. Tratados não interceptam aeronaves hostis.
No fim, permanece a pergunta: quanto vale a soberania brasileira?
Porque toda vez que afirmamos que ela é inegociável, mas recusamos prover os investimentos necessários para protegê-la, transmitimos ao mundo uma mensagem ambígua, quiçá de fraqueza: valorizamos a soberania no discurso, mas não a sustentamos na prática.
*General de Divisão da Reserva
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