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Domingo, 28 de Junho 2026
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Meditações na plataforma da estação

Colunista *General Otavio Rêgo Barros

Meditações na plataforma da estação
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A canção Encontros e Despedidas, do Milton Nascimento, tem marcado profundamente minha vida nos últimos anos.

O trem parte com pessoas queridas. O trem chega com pessoas queridas. O ambiente da plataforma é ciclotímico — tristeza e alegria — e me faz refletir sobre o bilhete que “compramos” ao nascer e ao perecer.

Há um ano, o autofalante da estação da vida anunciou a partida do meu velho pai. Guardo incontáveis lembranças e ensinamentos que, ao longo de sua parada, ele me deixou. Generoso, honesto, flexível, atencioso, reservado, verdadeiro, até ingênuo. Se posso sintetizar: um homem de caráter.

Ao final de sua estada aqui na Terra, com o corpo e a mente fragilizados, sua figura exalava respeito e união, como um espírito do bem, exilado de Capela, aguardando o retorno à casa após cumprir sua missão de espargir luz (referência à obra espírita de Edgar Armond).

Agora, de volta à Capela e acolhido pelo Pai, o velho reencontrou antigos camaradas, grandes amigos, queridos familiares. Sinto que a alegria começa a voltar e inundar seu corpo imaterial revigorado. Em breve, reunirá a turma da repartição para jogar conversa fora e tomar um bom uísque, ouvindo Sentimental Demais, de Altemar Dutra.

Seja feliz, velho. Deixe que cuidamos por aqui dos desafios e incontinências mundanas e, se puder, mande notícias do mundo de lá!

Há um mês, o autofalante da estação da vida anunciou a chegada dos gêmeos. Aqueles que “maiorzinho” e “menorzinho”, os netos mais velhos, aguardavam ansiosos desde o anúncio da gravidez da tia, prontos para completar o time de futebol de salão ou, quem sabe, o de polo equestre mais adiante.

Aprendi um monte de coisas novas e revi algumas “certezas” enquanto acompanhava a gestação de minha filha: ultrassonografia digital morfológica, bebês a termo, corticosteroides para amadurecer os pulmões, banhos de ofurô, translactação e outras tantas novidades.

Publiquei aqui no Jornal do Commercio, em 9 de agosto de 2025, um artigo promovendo uma campanha para canonização de São Tandrilax. Pois é, com os gêmeos precisei “rezar” com mais fé a ladainha que prevê um comprimido a cada 12 horas para relaxar a ociosa musculatura!

Não tanto pelo esforço físico das brincadeiras no parque ou das corridas com obstáculos na sala — afinal, “cabeludinho” e “galeguinho” ainda não saltam sobre minha barriga, nem escalam os brinquedos da praça —, mas pelos constantes sacolejos e marchas nos corredores do apartamento para acalmá-los antes das mamadas.

Quanto aos cânticos de ninar, recomendo baixarem no YouTube a canção Doce Esperança, da velha Cavalaria — uma verdadeira chupeta sonora para adormecê-los na alta madrugada.

Como é possível amar tanto duas coisinhas tão pequenas e em tão pouco tempo de vida, como se fossem anos de convivência? Não me incomoda ser visto como um avô coruja babão, pois sou mesmo.

A algaravia constante na estação da vida nos alerta que, à medida que nos afastamos do horário da chegada, cresce a necessidade de nos prepararmos para o momento inevitável da partida rumo a outras estações, definitivas ou apenas passageiras.

É imperativo, para peregrinarmos bem pela vida, compreender esse vai-e-vem de trens na estação, caso contrário, vamos nos afogar em preocupações sobre as quais não temos controle.

Na obra Meditações, uma compilação das ideias estoicas de Marco Aurélio, o imperador afirma: “se te empenhas em viver a vida que a ti se apresenta, isto é, a vida presente, estarás capacitado a viver o resto de tua existência até a morte livre de perturbações, com nobreza e com o favorecimento de tua própria divindade tutelar”.

Em síntese, ao nos concentrarmos plenamente no que acontece agora na plataforma da estação da vida — o presente real, e não expectativas da próxima parada ou memórias da anterior —, alcançamos serenidade, atravessamos a existência com dignidade e nos aliviamos das perturbações dispensáveis.

Ah, a chegada dos netos é ótima oportunidade para nos lembrarmos de que somos tão somente “um sopro de vida”, “um corpo precário” e uma “inteligência”. E, segundo Marco Aurélio, apenas a inteligência nos pertence verdadeiramente, o resto é memento mori.

* General de Divisão da Reserva

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