Parece haver um pacto silencioso entre cronistas: sem constrangimento, é possível escrever sobre Jesus apenas nos dias próximos à Páscoa e ao Natal. Resolvi romper com esse pacto, que nem me recordo ter firmado. Ser cristão se traduz em dois aspectos: acreditar na divindade de Jesus e, o mais difícil, seguir seus ensinamentos. Sou cristão, embora me pegue, muitas vezes, agindo como se não o fosse. Não compreendo alguns dos ensinamentos do Cristo expressos na Bíblia, o que não desidrata minha fé, apenas desnuda minha ignorância. Jesus, quando esteve por aqui em carne, curou cegos e coxos, e, sobretudo, almas. E muitos ainda teimam em buscá-Lo somente nos casos em que o corpo padece. Para as dores do corpo, há muitos tratamentos – há morfina, inclusive. Mas não há medicação que alivie as dores mais intensas da alma. Tenho a impressão de que não existe um inferno de fogo para que os maus queimem pela eternidade. Creio que o fogo que pode nos consumir – aqui mesmo e depois de partirmos – é o do remorso, do arrependimento, por não agir ou por agir tardiamente. E esbarrei em Dostoiévski: “Falam das chamas materiais do inferno: não exploro esse mistério e o temo, mas penso que, se essas chamas materiais existissem, em verdade, os condenados se alegrariam, pois, com os sofrimentos físicos, eles esqueceriam, ao menos por um instante, o sofrimento espiritual, muito mais terrível.”. Sempre foi mais fácil amar a Humanidade do que amar o próximo, logo ali ao lado da gente. Desculpe-me, caro leitor, por ter enveredado por palavras tão densas. É preciso voltar a Ele, à presença Dele. Nossa evolução é lenta, porém é fundamental ser constante, um pouco a cada dia, ou melhor, a cada instante. É impossível aceitar Jesus buscando algum ganho além de paz, fruto da absoluta ausência de dor e da presença de Seu amor (há pouco tempo, assisti a um religioso – ao se referir à passagem bíblica em que Jesus escrevia na terra – afirmar com convicção que Cristo era muito rico e tinha uma casa na praia). Se buscamos algo além, fama, dinheiro, devemos desistir de procurá-Lo,pois, com mínimo esforço, conseguimos enganar nós mesmos, contudo não há esforço que possibilite enganá-Lo. A Páscoa já passou, e não podemos esperar até o Natal para ouvi-Lo. Ah, de todas as passagens bíblicas, as que mais me confortam são aquelas em que Jesus afirma: “Eu sou!”. Que Ele seja, absoluto, para todos nós!
* Coronel PM, advogado e escritor
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