Ácidos da corrupção derretem alicerces das virtudes. Corrosivos, abalam valores da República, destroem o que se entende por democracia e desmoralizam regras do Direito, atrofiando dolosamente a justiça.
Procuram não deixar pistas, colocam num mesmo saco diversos tipos de farinha, aniquilando propósitos políticos e ideológicos. Ninguém escapa: esquerda, direita, centro dilatado, partidos, ideólogos que não se diferem, agrupando-se de forma ecumênica nas sedes dos Poderes. Tempus fugit: se o tempo foge, a verdade escapa. O iceberg se esconde nas profundezas. Só a ponta aparece. A ganância sobe nas alturas, com núcleos de corrupção, chefão com oito celulares de conteúdos escabrosos, num estilo mafioso que supera até a moderna italiana Nuova Camorra Orgazizzata, entre nós descrita pelo genérico e tentacular “crime organizado”. Não temos um “pentito”, o arrependido delator, mas um sicário, matador de aluguel, com salário de R$ 1milhão por mês. Numa cela da Polícia Federal, preferiu enforcar-se do que violar as implacáveis regras da omertà.
As estratégias são cinematográficas. Parece um polvo: o molusco estende seus tentáculos, mas consegue ficar camuflado, mudando de cor. Fica invisível, para defender-se e surpreender as presas. Um corruptor escolhe os corrompidos. Como escreveu Machado de Assis, ladrão não se faz de ocasião, mas já nasce ladrão. Gosta de apresentar-se como vestal, a virgem e casta da velha Roma.
Nossas vestais podem ser togadas, demiurgas intérpretes das regras sociais. Também são tribunos eloquentes para negociar e elaborar leis e emendas vergonhosas, empresários bem sucedidos, influenciadores de todo tipo, profissionais das leis exibindo reluzentes anéis no anular e faturando fortunas. Esferas bem sucedidas e remuneradas, acima de suspeitas: sedutores com caixas de artifícios e acordos espúrios. Seduzidos cooptados sem maiores esforços, distribuídos em espécie ou pela tentadora carne fraca. Até nisso o esquema era sofisticado: belíssimas mulheres, trazidas do exterior, como ucranianas, russas e alemãs, especialmente para bacanais bem pagas com convidados especiais, como autoridades dos três Poderes, convivas comprometidos pelo silêncio obrigatório. Bocas caladas, sem perigo.
São os podres nauseabundos do momento, sem nenhuma necessidade de maiores explicações: você, enojado, já sabe de tudo. O povo deve reagir em outubro.
*Jornalista e escritor
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