Acadêmicos da mais antiga Instituição Literário-Cultural de São Paulo, a Academia Paulista de Letras, reuniram-se para almoço no restaurante Quattrino. Ali existe no cardápio um prato que homenageia João Carlos Martins, o grande maestro de renome internacional e integrante da APL. Compareceram ao encontro Antonio Penteado Mendonça, Celso Lafer, Gabriel Chalita, João Carlos Martins, José de Souza Martins, José Pastore o presidente José Renato Nalini, Maestro Júlio Medaglia, Leandro Karnal, Maria Adelaide Amaral, Paulo Nathanael Pereira de Souza, Raul Cutait, Roberto Duailibi e Rubens Barbosa.
Dia 23 de junho o governador Rodrigo Garcia ofereceu jantar aos acadêmicos, pois ele é, estatutariamente, o presidente de Honra da Academia. E dia 30 de junho a posse do ambientalista João Lara Mesquita, que será saudado por Antonio Penteado Mendonça.
O melhor da festa
O almoço no Quattrino foi uma reverberação da posse de Leandro Karnal na Instituição mais significativa da cultura paulista e que tem cento e treze anos de ininterrupta existência, a favor da literatura, das letras, da leitura e da cultura em geral, sobretudo a bandeirante. Lembrou-se e comentou-se que, na posse de Leandro Karnal na Academia Paulista de Letras, o melhor da festa foram os discursos do empossando e o de Maria Adelaide Amaral, que o recebeu.
Maria Adelaide Amaral começou com “Leandro Karnal dispensa apresentações. Mas como é parte da liturgia desta Casa saudar o novo eleito, coube a mim a subida honra de recepcionar Leandro Karnal na Academia Paulista de Letras. Assim sendo, vamos sem demora para São Leopoldo onde ele nasceu e nasceram seus pais – Doutor Renato e dona Jacyr – orgulhosos descendentes de imigrantes alemães que, a partir de 1824, plantaram suas raízes no Rio Grande do Sul. A família Karnal sempre foi ultracatólica e fortemente interessada em política.
Seu tio-avô foi Prefeito em Lajeado e seu pai em 1960, foi eleito vereador pelo Partido Libertador. Não confundir com o atual PL! Trata-se do Partido Libertador, fundado por Raul Pila, baluarte do Parlamentarismo no Brasil. Dona Jacyr, por sua vez, descende da família Schlusen, de confissão luterana, o que representou um problema quando ela se enamorou de Renato Karnal. Mas como Paris vale uma Missa e um grande amor também, Jacyr concordou em ser batizada na igreja católica e tudo se resolveu harmoniosamente.
Da feliz união nasceram quatro filhos. Leandro foi o terceiro e o segundo menino do casal. “Éramos uma família de classe média interiorana da década de 1960 e 1970”, diz ele. Mas era também uma família muito musical e onde se falava o melhor vernáculo. Seu pai, professor de português, era famoso na região pelo uso escorreito da língua pátria. A ponto de certa vez um inimigo político, corrigido por ele, chamá-lo de “Rui Barbosa em compota”. Imediatamente, o líder do Partido Libertador mandou o sujeito lamber a compota para se nutrir de suas qualidades. O caso acabou virando crônica no jornal da cidade.
Karnal orgulha-se em dizer que o pai, hoje nome de avenida na cidade natal, além de advogado e professor de português, também lecionava Latim, francês e inglês comercial no Colégio São José. Foi nessa instituição de Freitas franciscanas de origem alemã, que todos os seus filhos estudaram e aprenderam a tocar um instrumento musical. A escolha de Leandro recaiu sobre o piano. Mas ele também tocava órgão e cantava no coral Madrigal.
Excelente aluno, aos 17 anos já o vemos no curso de História da Unisinos, a universidade jesuítica de São Leopoldo. Meses depois, porém, ele deixaria a faculdade para entrar na Companhia de Jesus. O que, aliás, não foi surpresa para ninguém. Desde os 15 anos Leandro dava aula de catequese e era um diligente coroinha desde sua primeira comunhão.
Já o discurso de Karnal enaltece as pessoas que foram importantes em sua formação: “Louvo meus mestres jesuítas, os quais deixaram um sulco fundo na minha alma. As aspirações inacianas reforçaram minha energia racional e retórico. Relembro a profecia de Daniel: aqueles que ensinam para a justiça brilharão como as estrelas do céu”.
Desde cedo, São Paulo o atraía: “O sonho do jovem estudante Anchieta reúne um generoso estuário. Aqui, os filhos do cacique Tibiriçá tomavam águas – então confiáveis – do Tamanduateí e do Tietê. Aos hídricos e sonoros topônimos indígenas sobrevieram fluxos do Tejo e do Tibre, algo do Reno, muito do Congo, ondas nipônicas, águas do Titicaca e, sempre, a presença generosa e produtiva dos imigrantes de todo país, especialmente dos nordestinos. O palimpsesto de Andrade é arte-processo que se enriquece com cada nova contribuição”.
Como celebridade, Karnal não desconhece o que o envolve: “A fama tem um pouco da fórmula da Teoria do Medalhão, de Machado de Assis. O sucesso pode ser uma gramática desafiadora. A notoriedade ganha sua própria dinâmica e tende a negar oxigênio quando o incauto deslumbrado supõe estar nas alturas. As redes sociais são o sol que queima a cera de todo Ícaro ousado. Desejo beber a ideia, lacaniana avant la lettre, de Rimbaud em carga a Georges Izambard: “Eu é um outro”. São Paulo gestou muitos sonhos que eu embalava em silêncio”.
Karnal foi aplaudido por longos cinco minutos pelo auditório em pé, o que evidencia o quão admirado e amado é, ao conquistar a glória da imortalidade bandeirante.