Brasília é uma cidade de beleza inquestionável, com ares cosmopolita, de entusiasmo contido e, ao mesmo tempo, de um viver pulsante.
Como pernambucano, sinto vontade de pular, frevar e cantar sempre que ouço Alceu Valença entoar: “voltei, Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço”. Finda a música, a capital federal volta a me falar: “estou indo pra Brasília, neste país lugar melhor não há” (Legião Urbana).
Suas largas avenidas, monumentos de rara imponência, praças bem cuidadas, trânsito organizado, ruas limpas e arborizadas — todos esses predicados realçados pelos ipês multicoloridos que se espalham nas tesourinhas — refletem a força que ela armazena.
No último fim de semana, levei a família à Praça dos Cristais, localizada em frente ao Quartel-General do Exército. Minha filha a escolheu para registrar em fotografias a barriga dos gêmeos.
A opção não poderia ser mais feliz: é um lugar simbólico. A praça nasce, renasce, seca e floresce, preparando-se para enfrentar os percalços do dia a dia, como em uma gestação.
Aos poucos, a lâmina d’água, de onde brotam cristais de argamassa e ferro, torna-se mais translúcida, enquanto o pôr do sol se despede em cores intensas e deslumbrantes.
O momento desse regalo divino é chamado Golden Hour. Na obstetrícia, representa a primeira hora de vida do recém-nascido — instante decisivo de vínculo entre mãe e filho. Na fotografia, designa a luz suave e avermelhada que antecede o ocaso, tão favorável ao registro das cenas.
A luz do sol e a barriga de gêmeos, em uma simbiose de energias, inundava a praça de alegria e esperança.
Crianças corriam soltas, gritando e gargalhando sem destino; famílias desfrutavam lanches em clima de piquenique; casais sussurravam ao namorar; jovens noivas eternizavam em fotos a união; cães farejavam os cantos, atentos ao instinto natural de explorar.
Do outro lado da avenida, turistas percorrendo a concha acústica, caracterização do copo de uma espada, admiravam o enorme mastro com a bandeira nacional, as linhas curvilíneas de Niemeyer, o obelisco que simboliza o gládio invicto de Caxias e o auditório Pedro Calmon, a imponente peça arquitetônica que remete ao casquete do Pacificador.
Ao fundo, o edifício austero do Quartel-General abriga a alta administração da Força Terrestre. Ali se encontram o Comandante do Exército, o Estado-Maior e os órgãos de direção setorial. Todos trabalham em uníssono para preservar, aperfeiçoar e preparar a Força, cumprindo com rigor e profissionalismo suas missões constitucionais.
Mas voltemos à Praça dos Cristais, verdadeiro microcosmo do Brasil. Depois de tempos dolorosos, as árvores, flores e plantas se preparam para dias melhores; o cheiro de chuva anuncia, ao longe, a chegada das águas generosas da primavera e do verão.
A praça reflete os valores e tradições dos homens e mulheres que a observam diariamente do Forte Apache, como é carinhosamente chamado o Quartel-General.
Gente como a gente, gente que supera adversidades; gente que inspira união; gente que busca renovação; gente que prefere olhar para o para-brisa a mirar o retrovisor; gente que traz a essência do nosso povo.
Enquanto o sol se despede e a luz dourada se vai lentamente da Praça dos Cristais, homens e mulheres fardados seguem pelejando nos mais distantes rincões deste imenso Brasil, garantindo a segurança que faz nascer cada novo dia repleto de esperanças.
Homens e mulheres na diversidade ambiental da Amazônia; homens e mulheres na aridez da Caatinga; homens e mulheres no alagado Pantanal; homens e mulheres na secura do Cerrado; homens e mulheres espalhados do Oiapoque ao Chuí, da Ponta do Seixas à nascente do Moa.
Eles adormecem e despertam ao som do clarim. Não ambicionam recompensas. Servem sem expectativas maiores que apenas o reconhecimento silencioso de seus irmãos de sangue.
Por isso, não nos custa reverenciar: “Obrigado Soldados do Brasil!”. Ah! os gêmeos já os reconhecem e pulam na barriga quando os ouvem marchar.
*General de Divisão da Reserva
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