Um grande amigo que tenho, ao comentar artigo que escrevi, disse que eu tratava do óbvio. De forma alguma tomei esse comentário como crítica ofensiva e despropositada por duas simples razões. A primeira por que, como amigo leal e sincero, sei, ele falava o que pensava sem intenção de me diminuir e apenas expressava a sua opinião e, o segundo motivo, é que, realmente, concordo com ele, eu escrevo sobre o óbvio.
Por que escrever sobre o óbvio? Escrevo por que, embora muitas das coisas sejam evidentes, elas são envoltas no manto da obscuridade seja, intencionalmente, por aqueles que querem que assim o seja, ou mesmo porque em certas ocasiões falta às pessoas a necessária cognição para a real interpretação dos fatos.
Hoje me propus a falar sobre o homem cordial. No ano de 1936, Sérgio Buarque de Holanda publica a sua obra Raízes do Brasil com a intenção de traçar um perfil do homem brasileiro. Ao investigar as raízes históricas, culturais e psicológicas que moldaram o caráter do brasileiro ele nos apresenta o homem cordial.
Buarque de Holanda nos mostra o homem cordial com alguns traços principais. O primeiro deles “e a sua afetividade excessiva, o que o leva a considerar os laços pessoais como os mais importantes fatores na resolução de conflitos e, assim sendo, ele é avesso aos formalismos e ao cumprimento das convenções sociais e jurídicas que por ele são substituídas pelo famigerado “jeitinho”.
Outro traço apresentado é a sua ambivalência ao ser, por vezes, extremamente afável e por outras de comportamento violento. O homem cordial ainda traz, de sua herança da colonização portuguesa, o patrimonialismo, característica que o leva a confundir o público com o privado e, assim sendo, o Estado passa a ser a extensão da sua casa.
A despeito de tratarem-se de pessoas de maior flexibilidade e criatividade, a priorização que dão ao relacionamento pessoal, dificulta o estabelecimento de culturas organizacionais sadias para as Instituições e órgãos aos quais pertencem e em maior monta para o próprio funcionamento do Estado.
É justamente essa condição que pode explicar porque, depois de mais de um século de estabelecimento da República, o nosso país que no século XX, era tido como a nação do futuro, ainda cambaleia para se estabelecer como país a altura do gigantismo e das riquezas que possui.
Desde a proclamação da República, a fragilidade de nossas Instituições conduzidas e erigidas pelo homem cordial favoreceram as oligarquias, o clientelismo, o populismo, a corrupção, a incompetência administrativa e o comportamento não ético em geral.
Ainda hoje, em desrespeito à Constituição e às Leis, é na base da amizade e do relacionamento pessoal que criminosos são soltos, o Congresso Nacional deixa de atender os interesses do povo para não se atritar com os outros poderes é, ainda, ao arrepio da Lei que o (afável/violento) homem cordial persegue seus inimigos políticos. A nível federal, estadual e municipal, em órgãos do governo, e entidades civis sem fins lucrativos graça a corrupção e uso da máquina em benefício próprio e dos seus.
Esse foi um câncer detectado ainda no Século que passou e os remédios que seriam usados para exterminar a doença, como trazem desconforto e efeitos colaterais, tiveram a sua prescrição e administração boicotadas por esse mesmo homem cordial que, diante das medidas austeras, sempre dá o seu jeitinho.
Aos amigos os favores, aos inimigos o rigor da Lei. É assim que a banda toca.
* Um cidadão brasileiro
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