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Domingo, 28 de Junho 2026
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Estragos do vendaval

Colunista *Percival de Souza

Estragos do vendaval
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As coisas ficaram bem feias: ventos fortes, chuva, Enel deixando na mão, transtornos terríveis provocados pela falta de energia, árvores caídas, prejuízos, estragos, jogo de empurra pelas responsabilidades, desespero, frustrações, impotência.

Na destruição, o vendaval arrastou muita coisa com as quais somos forçados a se acostumar. Pior: os ventos uivantes atingiram outros setores da sociedade, revelando um outro tipo de problema: a corrosão ética e moral pegando em cheio instituições que deveriam ser exemplares, com personagens tragados por vergonhosos colapsos morais. A tal ponto que o presidente do Supremo Tribunal Federal se viu, em vista de comportamentos inadequados e notórios desvios éticos, obrigado a propor a criação de um código de conduta, inspirado no Tribunal Constitucional alemão, para definir o que não se deve fazer nas altas esferas do Judiciário.

O brasileiro está boquiaberto. Oh!, pode ser uma interjeição indicando reação de espanto. “Ó”, antífona usada em cânticos religiosos. Temos uma igreja com esse nome no bairro da Freguesia. Mas o vendaval também evoca um profundo significado, na exclamação de Cícero: ó tempos! Ó costumes!

O orador (um dos maiores da História) Marco Túlio Cícero, filósofo e político romano, fez seu desabafo ao colocar em primeiro lugar o bem público. Referia-se aos depravados costumes da época. Se trocarmos o latim pelo inglês, fica “Oh, the times! Oh, the customs? Mas para que a lembrança de Cícero? Simplesmente porque ela se tornou urgentemente necessária.

Apenas um exemplo que nos toca muito de perto: a absolvição judicial de Marcola, o chefão do PCC, e mais 159 bandidos da sua horda. Isso porque a maldita facção promoveu dias de terror em 2006. A maior investigação que se fez sobre o sinistro bando organizado, apurou como se articula toda a escala de comando, tráfico de drogas (internacional inclusive), descobertas com escutas telefônicas, apreensão de muitas armas e munições, 59 policiais assassinados, 73 rebeliões em presídios, resgates e atentados.

Doze anos depois da barriga ser empurrada, o processo prescreveu, graças a chicanas variadas. “Extinção da punibilidade”, diz o jargão jurídico em solilóquio para si mesmo. Só se fala em crime organizado com temor, projetos, alteração de leis, maior rigidez penal e promessas. Fracasso do Estado. É pouco para definir essa vergonha que aconteceu.

*Jornalista e escritor

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