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Domingo, 28 de Junho 2026
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E se Capitolina tivesse devorado os gêmeos?

Colunista *Gen. Otavio do Rêgo Barros

E se Capitolina tivesse devorado os gêmeos?
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Na mitologia romana, a Cidade Eterna teve origem quando a loba Capitolina encontrou os gêmeos Rômulo e Remo abandonados às margens do rio Tibre.  A despeito de seu instinto animal, ela os amamentou com seu próprio leite, garantindo a sobrevivência daqueles que fundariam a grandiosa Roma.

O tempo passou, a cidade se fortaleceu, seus cidadãos expandiram os horizontes para além das colinas de origem e um vastíssimo império foi erguido, compreendendo terras desde o oceano ocidental ao rio Eufrates. Durante mais de cinco séculos, Roma impôs-se como referência política, cultural, jurídica e filosófica para o Ocidente.

Edward Gibbon, em sua obra HISTÓRIA DO DECLÍNIO E QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO, atribuiu o colapso da civilização romana ao “triunfo da barbárie e da religião sobre as nobres virtudes romanas”. Segundo ele, a decadência resultou de uma complexa combinação de fatores políticos, militares, econômicos e psicossociais.

Internamente, o império afundava em crises de sucessão (entenda-se luta pelo poder), corrupção endêmica, finanças colapsadas, impostos extorsivos, inflação acelerada e queda na produção agrícola.

No plano militar, as poderosas legiões romanas perderam identidade e espírito de corpo, tornando-se dependentes de mercenários pouco leais a seus centuriões.

Externamente, as invasões bárbaras — com destaque para a liderada por Alarico, o visigodo que chegou às portas de Roma — escancararam a fragilidade das fronteiras.

Epidemias, como a Peste de Cipriano, e profundas transformações culturais, como a adoção do Cristianismo, minaram a unidade do Estado. O resultado dessa degradação foi a queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C.

A história de Roma serve como alerta a potências que se consideram inatingíveis. Supremacia política, econômica, tecnológica, cultural e militar podem, paradoxalmente, conter em si os germes da própria ruína.

Nos últimos dias, assistimos a verdadeiras batalhas campais nas ruas de Los Angeles, uma das principais cidades dos Estados Unidos da América. Ali, manifestantes — defensores de imigrantes e de outras causas identitárias — enfrentaram policiais, tropas da Guarda Nacional e até Fuzileiros Navais.

Aliás, o emprego dos Marines, por ordem do presidente Donald Trump, contraria os princípios da Lei Posse Comitatus, de 1878, que proíbe o uso de forças armadas federais no território nacional, salvo em situações excepcionais.

Como tudo isso começou?

Nos Estados Unidos, o acrônimo WASP (White Anglo-Saxon Protestant) refere-se a um grupo de origem predominantemente anglo-saxônica, cujos valores moldaram a formação da nação.

Foi essa gente que liderou marcos históricos como a chegada à Baía de Chesapeake, a conquista do território além dos Apalaches, a guerra de independência, a convenção dos pais fundadores, a promulgação da Constituição e até mesmo a Guerra da Secessão.

Ao longo de mais de três séculos, os EUA consolidaram fronteiras, expandiram sua influência global e afirmaram-se como potência hegemônica. Para isso, contaram também com a imprescindível contribuição de forças de trabalho exógenas.

Esse processo resultou no crescimento de grupos étnicos diversos, transformando a pirâmide social do país. A população compreendida como WASP perdeu predominância numérica, embora tenha preservado boa parte do poder.

Nos últimos anos, as aceleradas mudanças no mundo ampliaram inclusive os contenciosos internos. A polarização política, a perda de referência da família tradicional, a competição entre grupos étnicos, a escassez de empregos bem remunerados etc. alimentaram ressentimentos. Nesse cenário, muitos eleitores apoiaram as promessas de Donald Trump, sintetizadas no lema “Make America Great Again”.

Contudo, a escolha de Trump para conduzir a nação não é a causa nem a solução ao desafio — é o sintoma, é a consequência de uma mutação profunda, que abalou as certezas mais enraizadas no “american way of life” sobre a superioridade estadunidense.

Fica a provocação: conflitos como os que eclodiram em Los Angeles — um microcosmo da realidade naquele país — seriam indícios da chegada de novos “Alaricos” às portas de Washington, D.C.?

Estariam os pilares do modo de vida norte-americano começando a rachar, à semelhança de Roma, diante das pressões internas e externas que desafiam uma pretensa “predestinação”?

*General de divisão da reserva

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