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Sábado, 27 de Junho 2026
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Controlar os autocratas: uma missão da sociedade

Colunista Otavio do Rego Barros

Controlar os autocratas: uma missão da sociedade
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Os significados esquerda-direita que representavam as agrupações ideológicas desde a Revolução Francesa estão sendo relegados no mundo real a um plano secundário. 

Como afirmou Norberto Bobbio, ao final do século passado, esquerda e direita passaram a ser muito mais coordenadas geográficas no ambiente eleitoral do mundo democrático do que uma distinção política e ideológica que mereça atenção na hora da escolha do líder. 

É fato. Com o fim da polarização vigente ao longo da Guerra Fria, essas terminologias, que de alguma forma representavam os lados em confronto, foram sendo refutadas por uma nova dinâmica das relações políticas e sociais. 

Para reforçar a argumentação, tomo por base a divisão de governos e grupos diversos, nos quatro cantos do mundo, apoiando ou rechaçando as eleições ocorridas recentemente (28.07.24) na República Bolivariana da Venezuela. 

Governos de esquerda e de direita, indistintamente, denunciaram o pleito, qualificando-o como fraude e afronta à democracia.  

Governos de esquerda e de direita, indistintamente, apoiaram o resultado, afirmando que a eleição foi uma verdadeira festa à democracia. 

Dos blocos que se formaram percebe-se que os antagonistas ao regime bolivariano, grupo majoritário, chegaram ao poder fruto de corridas eleitorais transparentes, validadas interna e externamente, sob regras democráticas.  

Já os apoiadores, muitos deles assumiram o poder em processos obscuros, verdadeiros simulacros de eleições, e lá permanecem, valendo-se de manobras furtivas que sufocam as legítimas oposições. 

Há um terceiro lote, o grupo de indecisos que teme posicionar-se por receio de que, assumindo uma postura, as relações com países contrários à sua decisão se deteriorem.  

Essa condição de neutralidade também é influenciada por imposições ideológicas internas que vigem em alguns deles. 

Cada um desses três blocos se aglutina conforme privilegia mais ou menos a ideia de autocracia.  

Autocracia que, segundo o Dicionário Houaiss, significa: poder ilimitado e absoluto; regime em que o governante detém esse poder; país, estado etc. em que impera essa forma de governo; poder excessivo [...]. 

O homem, em sua evolução social e posteriormente política, ao formar grupos para enfrentar as adversidades, logo percebeu a necessidade de escolher e seguir líderes.   

Líderes que fossem os mais fortes, os mais ágeis, os mais resilientes, os mais sábios. Líderes os quais a comunidade respeitaria, reforçaria suas decisões e, em consequência, se subordinaria. 

Esses líderes, entretanto, ao assumirem seus papeis, sentiram que o poder lhes era bom e oferecia alguns privilégios. 

Logo, o equilíbrio de poder entre os indivíduos que lideravam e os que eram liderados foi pendendo a favor dos primeiros. 

Quanto mais essas lideranças gostavam do poder, mais elas abandonavam a característica mãe da democracia de um governo do povo, para o povo e pelo povo, substituindo por algo como um governo de um grupo, pelo grupo e para o grupo. 

Se os agentes políticos têm poder não controlado (portanto um autocrata como define Houaiss) tendem a se aproximar da postura de ditadores e até assumi-la despudoradamente. 

A realidade é que hoje estamos cercados de agentes políticos autocratas – dos extremados aos amenos - de esquerda e de direita, progressistas e conservadores, liberais e estatizantes. 

Mas há esperanças.  

Se, como cidadãos conscientes dos desafios vindouros, incutirmos na consciência de nossas próximas gerações que o poder sendo afrodisíaco, enebria, corrompe e destrói, e, portanto, deve ser utilizado com parcimônia e sobriedade, menos autocráticos nossos líderes serão.   

Em paralelo, se a sociedade fortalecer os ideais de convivência política genuinamente democráticos, pondo-os em prática no dia a dia, ela impedirá que aventureiros com verniz totalitário se alcem ao poder. 

Afastar autocratas é a missão principal dessa sociedade moderna quando organizada.  

Diante desse desígnio, o cidadão, sendo responsável pelos processos de escolhas, em legítimas e maduras democracias, não poderá basear seu apoio a uma candidatura por ser essa tão somente propagadora de ideias da esquerda ou da direita.  

Acolhendo o pensamento de Bobbio como tese, doravante, aquele cidadão consciente deverá observar detidamente quão genuína é a defesa da liberdade e da legalidade que o agente político de sua predileção promove. É isso que realmente conta. 

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