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Sábado, 27 de Junho 2026
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Coitado do Pereira

Colunista *José Renato Nalini

Coitado do Pereira
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O “Diário Secreto” de Humberto de Campos é um repositório de narrativas de seu tempo. Implacável caricaturista do caráter alheio, mesmo com os amigos, não é generoso ao descrevê-los. Minudencia o traço fisionômico de quem analisa como se fora um esteta. Muito crítico e até impiedoso.

            Por exemplo: “Magro, rosto chupado, pele escura de mulato, é uma figura que inspira simpatia e dó, essa de Pereira da Silva”. Do aspecto físico, parte para a análise do vestuário: “A sua roupa escura, surrada, dá a impressão de ter sido comprada de segunda mão, ou melhor, de segundo corpo. Nunca se o viu com um terno novo. É uma coruja feito homem”.

            Não bastasse, continua a dizer por que o compara a essa ave que, para a maioria, é de mau agouro: “E esse homem, que tem alma de santo, canta como as corujas. O seu canto é um agouro. Jamais a sua lira desferiu um som alegre, uma nota jovial. A sua musa vive de joelhos, a cabeça perpétua de cinza”.

            Daí a expressão com que costumava se referir ao “amigo”: - “Coitado do Pereira!”. E atribui o dito a Castro Menezes: “É bom como ninguém. E, no entanto, desde a infância carrega uma cruz!”.

            Dispõe-se a narrar a história pessoal do Pereira: “É uma tragédia. O Pereira é filho de um marceneiro da Paraíba. Era ele pequeno quando o pai morreu, deixando a família na miséria. Depois do enterro, a família foi à oficina, para entregar aos credores o pouco que ali havia. Uns ficaram com os raros móveis existentes. Outros, com as tábuas e as ferramentas. A um canto, havia uma cruz de madeira, da altura de um homem. Ninguém a quis. Ficou com o Pereira, que ainda hoje a tem, e que a vem carregando pela vida”.

            Não satisfeito, continua a contar as desventuras do amigo. “Até no coração, coitado, tem ele sido golpeado. Imagina que ele se casou com uma criatura a quem queria bem, filha do Rocha Pombo. Pouco a pouco, depois do casamento, foi sentindo que ela o evitava de toda a maneira. Até que um dia, ela, em pessoa, lhe confessou a sua situação. Consultando o seu coração, havia ela verificado que não o amava mais. E como viver ao seu lado seria uma hipocrisia e um sacrifício, pedia-lhe que a deixasse voltar para a casa de seu pai, tomando o Pereira, então, o rumo que quisesse. E o Pereira, com o coração despedaçado, deixou-a ir. É um santo o Pereira”.

 

*José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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