A Polícia Federal tem um mestre em dar nome às suas operações. “Carbono Oculto” foi uma das últimas. Atingiu em cheio o mercado financeiro e abriu uma cratera aparentemente oculta, mas mantendo ligações profundas com organizações criminosas.
Interessante o nome da operação. Quer dizer muita coisa: carbono é poderoso elemento químico, o quarto em abundância no planeta, grande base da vida orgânica, origem de moléculas que podem adquirir formas como grafite, diamante e combustíveis. Entrelaça-se com átomos pequenos, capazes de formar massas rochosas.
Aí estão, em outras palavras, os significados da metafórica Operação Carbono. Você pode decodificá-las em transplante semântico para as raízes da economia. Mundo do crime: uma origem, ramificações, diversificações, aplicações e investimentos vultosos, sem que se possa explicar a gênese de negócios, em forma de investimentos em diversas formas.
Seguir o dinheiro foi a grande pista. Uma facção que não pode explicar a origem e muito menos como se obteve tanto dinheiro, precisa montar uma verdadeira rede de lavanderias, cujo único propósito é lavar um dinheiro imundo, obtido nas mais variadas e podres atividades ilícitas. Lavar o dinheiro, de forma a deixá-lo o mais branco possível. Ou seja: o carbono e a sua face oculta, transformado de poderoso elemento químico em átomos, que por sua vez se dividem em partículas.
A origem de tudo tem muitas procedências. Muita gente tem posses que legalmente jamais teria condições de explicar. Alguns são discretos. Outros, sutís como um elefante em loja de louças. Há os que preferem, pelo menos na aparência, chamar a atenção, como postos de combustíveis, rede de padarias e vários negócios onde não é fácil comprovar a origem do dinheiro. Para despistar o sempre faminto do leão da Receita, empresas são abertas. Algumas são fechadas rapidamente para apagar rastros. Os nomes dos proprietários giram em torno de “laranjas”, inocentes nada úteis, que por sua vez fazem investimentos em larga escala, obtendo grandes faturas, juros e lucros.
É o pulo do gato. O felino organizado mudou de endereço. Nada de favelas ou periferias, os esconderijos mais conhecidos. Foram para uma das regiões mais cobiçadas da cidade, o coração financeiro da nossa Manhattan. Gestão de negócios, poderíamos falar em economês, o artifício semântico. Na real, “malas” sofisticados, apesar dos ternos e gravatas.
*Jornalista e escritor
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