Tem gente que idolatra bandido e odeia a Polícia (só gosta dela quando precisa). Para o criminoso, está valendo tudo diante de um aparato de persecução penal fracassado. A bandidolatria faz o crime dominar. Sem limites. Poder de fato. O Estado é paralelo.
A constatação emerge mais uma vez: um homem de bicicleta parou para olhar seu celular, dois bandidos de moto se aproximaram, o garupa desceu e deu-lhe um tiro que acertou o pescoço, roubou o aparelho, voltou para a moto e os dois fugiram. Uma senhora de 67 anos, fazendo seu cooper, foi abordada por dois crápulas de moto. Queriam celular. Ela não tinha. Exigiram a aliança e morderam seu dedo para arrancá-la. Não conseguindo, chutaram sete vezes a mulher caída e fugiram.
Indignação. Revolta. Os “especialistas” de boteco fecham a boca. Os “professores” à distância, que não frequentam quartéis, delegacias, fóruns ou presídios, ficaram distantes, escastelados em faculdades sem nada a ver, com palpites estéreis e vendendo ilusões ideologicamente comprometidas. Cegueira deliberada. A Polícia é ignorada nessas elucubrações, mas a turba neófita, atrevida e apedeuta em matéria de segurança, sem saber pensa que pode ensinar a Polícia a fazer polícia.
A síndrome coletiva do medo nos obriga a refletir. Do jeito que as coisas estão, não se pode continuar. É muito besteirol junto. Embora ululante, o óbvio precisa ser reafirmado. O dramaturgo Nelson Rodrigues bem escreveu: temos de ser profetas do óbvio: frequentemente exclamada por vozes histriônicas em erupção de verbogaria verbal, a frase “bandido bom é bandido morto” é alvejada. Quem diz, é massacrado, como se fosse nazista. Os adeptos de ódio seletivo são analfabetos: o vernáculo está em vigor. Mesmo ignaras, consideram-se exemplos de virtude. Bandido quer dizer malfeitor, facínora, gângster, criminoso, autor de crimes de maneira cruel e perversa. Sendo assim, e é, não existe bandido que possa ser chamado de “bom”. Uma grande contradição, pois bom é aquele que cultiva a fraternidade, a honestidade, - aqueles que chamamos de “gente do bem”, “cidadãos de bem”. Impossível, portanto existir “bandido bom”. É gramaticalmente ridículo. Pensemos bem. A próxima vítima pode ser qualquer um de nós. Queremos continuar vivos. Bandidos preferem nos ver mortos, como o ciclista, ou roubados. Ruins por natureza, eunucos morais. Bons somos nós, alvos da selvageria.
Percival de Souza
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