Quem costuma lamentar que os barzinhos das imediações estão lotados e as salas de aula estão vazias, talvez não esteja a considerar o que isso significa. As novas gerações já não aguentam as preleções professorais ainda calcadas na concepção de que ensinar é transmitir informações.
Desde criança, o educando é um receptor de verdades proclamadas pelo único detentor do conhecimento, que é o professor. Isso funcionou durante muito tempo, mas já não funciona com os millenials. Quem nasceu sob o signo digital não consegue ouvir por cinquenta minutos, a repetição de algo que ele encontra em segundos nas redes sociais.
Os inteligentes já reduziram esse tempo. Daí o êxito das palestras TED, que têm cinco minutos. Blá-blá-blá não convence, mas irrita a juventude que já nasceu com chip, inteiramente plugada nas tecnologias que permitem visualizar e ouvir tudo o que realmente interessa.
O Brasil, reduto de pessoas que não tiveram escolarização e que foram treinadas nas últimas décadas para acreditar que o governo resolve todos os problemas e atende a todas as necessidades, é um campo fértil para a continuidade de experimentos que o mundo já abandonou. Continuam os cursos tradicionais, formando profissões que não serão necessárias dentro em pouco.
Quem consegue enxergar um palmo adiante do nariz já mudou a tática. Uma pós-graduação tem de ser algo mais convincente do que transmitir informações e depois reelaborá-las em dissertações e teses que serão destinadas ao ostracismo. Hoje, o que vale é a experiência prática, a intenção de resolver um problema concreto, a elaboração de um trabalho aplicado. De preferência, uma produção coletiva, que envolva um grupo de pós-graduandos.
Visita a nichos de excelência internacionais. Desenvolver projetos de startups na área escolhida. Dar respostas pioneiras para questões antigas. Investir na competência criativa, favorecer o empreendimento. Quem se propõe a fazer uma pós-graduação – já que o bacharelado é levado muita vez aos trancos e barrancos – sabe que tem de ser proativo e capaz de gerar impactos na realidade. Diploma, título, já não interessa tanto ao currículo como a experiência e a capacidade de se adaptar a uma realidade que vai desafiar aquele que não se resignar a ser um infeliz subalterno pelo resto de seus dias.
Por isso, não recrimine os jovens que deixam a sala de aula e lotam os barzinhos e até mesmo as vias públicas das imediações de uma escola que não preenche as suas necessidades.
Somos nós que temos de enxergar claramente a situação e tentar oferecer aos moços aquilo que eles intuem deva mudar significativamente e para melhor, a trajetória de suas existências.
*Reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.
José Renato Nalini