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Sexta-feira, 11 de Setembro 2026
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As antas no carnaval

Colunista Percival de Souza

As antas no carnaval
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Grande surpresa nesse carnaval: surgiu nos desfiles e nos blocos um grupelho de antas, gingando e requebrando, abrindo alas para um samba de doidos, como dizia, na época, sem medo do “politicamente correto”, o compositor Sergio Porto. 

Antas? Antas. Antes de começar a festa de Momo, pretendiam elas que o sistema de segurança por reconhecimento facial fosse cancelado, alegando que o método é “discriminatório” e “inconsistente”, atingindo pessoas que se manifestam “pacificamente”. As antas fizeram de conta que não sabem: o “smart stamp”, programa criado pelo decreto 63.552, capturou quase mil criminosos em flagrante e 800 foragidos da justiça. Na folia, tem de tudo: os que querem se divertir, maciça maioria, e o incômodo dos bêbados e assédios, os que fazem pipi na rua e os arrastões para furtos e roubos. Marcelo Rubens Paiva, autor do livro que inspirou o filme “Ainda estou aqui”, vencedor do Oscar, desfilava com sua cadeira de rodas no baixo-Augusta, quando foi atingido por uma mochila e uma latinha de cerveja. Segundo as antas, nada disso aconteceria. Mas policiais civís fantasiados se misturaram na multidão e prenderam marginas no momento certo. Ora h. 

Esclareça-se: anta é um manífero com focinho e lábios enormes, que emite um som parecido com assobio. Além do animal ser assim, no Brasil o nome dela é usado para identificar pessoas lentas e bobas. A busca facial procura, e obtém exito, ao puxar o que na gíria policial é “capivara”, para verificar a existência ou não de antecedentes criminais. 

Como se vivessem em outro planeta, nossas antas tentaram rebolar no samba doido, lembrando que tal palavra é referida para definir os insensatos e sem juízo. Mas no nosso caso, elas procuram se considerar pessoas qualificadas, preocupadas com o interesse público, levando a Prefeitura Municipal a reagir contra esa intromissão com “estranhamento” e “indignação”. 

Embora anta lembre Antares, a grande obra de Érico Veríssimo, que tem a palavra “incidente” no título do livro, não há nada a ver: antares é uma grande estrela e nossas antas preferem viver na escuridão. 

Antas de plantão precisam levar em conta seus incontornáveis limites. Foi como Apeles, grande pintor da Grécia antiga (retratou Alexandre, o Grande), fixou parâmetros: “Ne sutor, ultra crepidam”. Não vá o sapateiro além de suas sandálias. Problema: as nossas antas, além de míopes, andam descalças. 

* Jornalista e escritor 

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