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Terça-feira, 27 de Outubro 2026
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Afiar a ponta da lança: responsabilidade da sociedade

Colunista *General Otávio Santana do Rêgo Barros

Afiar a ponta da lança: responsabilidade da sociedade
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Há poucos dias, participei de um encontro no qual se discutiram, entre outros temas, os cenários prospectivos para a Força Terrestre diante dos urgentes e complexos desafios que se avizinham.

Para criar um ambiente menos formal e facilitar a compreensão de suas ideias pelo público, o coordenador utilizou a velha lança da cavalaria como metáfora.

Construiu sua argumentação afirmando que o portador daquela arma deve conhecer previamente suas potencialidades, adestrar-se em seu manejo e, então, pôr-se em guarda, avaliando quando apontá-la e quando ensarilhá-la.

Considerando a lança como o instrumento que reúne, em sua estrutura, o poder militar e o poder civil, destacou que a ponta, capaz de ferir, representa os homens e mulheres fardados (poder militar), enquanto a haste que a orienta simboliza a própria sociedade (poder civil).

Como corolário, concluiu que a ponta, sem a haste que a dirige, torna-se inócua para a defesa de um país diante de antagonismos.

Atualmente, as Forças Armadas do Brasil contam com cerca de 350 mil profissionais, o que equivale a apenas 0,16% da população do país.

Para facilitar o entendimento, em um grupo de 1.000 pessoas, somente 2 têm a missão de defender as demais contra adversários interessados em nossas riquezas.

Ainda que importante, podemos até adiar discussões sobre efetivos, sobre desdobramentos de tropas, sobre tipo e origem do armamento empregado, sobre evolução doutrinária e sobre modernização tecnológica.

Contudo, não há mais tempo para protelar debates sobre a insustentabilidade orçamentária e a imprevisibilidade financeira, fatores que tornam a ponta da lança cada vez menos eficaz; nem sobre pesquisa, desenvolvimento e produção de materiais de emprego militar em território nacional, reduzindo a dependência externa.

Também não há como adiar o debate sobre o estímulo ao compartilhamento entre as indústrias civil e militar na criação de meios duais. Em síntese, aperfeiçoar a mobilização nacional.

Mundo afora, os orçamentos de defesa crescem exponencialmente. Segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), ao contrário do Brasil, mais de 100 países aumentaram seus gastos militares em 2024, elevando para 2,5% a parcela do produto interno bruto (PIB) global destinada à defesa (no Brasil, é cerca de 1,08%).

A velha Europa, diante do rugido do urso russo e da ausência de apoio da águia americana, destaca-se nos gastos com defesa, mas não está sozinha: Arábia Saudita, China, EUA, Índia, Irã, Israel, Japão, Líbano, México, Taiwan, entre outros, seguem a mesma toada.

Analistas de geopolítica já percebem as mudanças críticas que marcam o cenário mundial: o ressurgimento da Rússia como potência imperialista, após o declínio com o fim da Guerra Fria; a disputa aberta pela hegemonia global entre Estados Unidos e China, abrangendo todos os campos do poder; e o mal-estar generalizado das populações, que assistem, ouvem e sentem os efeitos do desordenamento das relações entre países e pessoas no alvorecer do século XXI.

Lamentavelmente, as mesas diplomáticas, mediadas muitas vezes pela ONU, sofrem hoje os efeitos corrosivos de cupins nacionalistas: suas pernas estão bambas, chacoalhadas por personalismos doentios, e a toalha de linho que as ornava encontra-se esgarçada pelo atrito dos cotovelos ideológicos e do metal do “Smith & Wesson .38”.

Diariamente, os noticiários relatam decisões de países que afrontam a soberania de outros, sustentadas pela assimetria de forças entre ofensor e ofendido.

Para que não nos tornemos manchete em um futuro incerto, precisamos enfrentar nossa relutância em tratar do tema da defesa. É imperativo que nossas lideranças políticas ouçam os ecos dos gladiadores inimigos que já marcham em nossa direção.

Sem unidade de pensamento da sociedade e sem apoio e investimento vigoroso do governo, a lança da defesa nacional logo se fragilizará na missão de resguardar o futuro do Brasil.

É hora de “cair na real”, ajudar a afiar a ponta da lança e preparar-se para os duelos inevitáveis. Caso contrário, nossos filhos e netos nos cobrarão pela leniência. Isso, se ainda estiverem livres!

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