A liberdade de se manifestar tem sido algo entendido como sagrado na história recente do país, naquele que alguns chamam o período de redemocratização. As manifestações populares estão no bojo desse entendimento, por trazerem a público a verbalização da vontade de um grupo perante seus dirigentes.
Toda manifestação popular legítima, assim, deve ser levada em conta, pois traduz um sentimento e uma percepção, cuja veracidade, importância ou valor só depende da visão daquele que a interpreta, mas, de qualquer forma, é um retrato fiel do que vai no peito dessa gente.
Falo de manifestação popular legítima porque recentemente já vimos manifestações de legitimidade duvidosa, na medida que, artificialmente, os manifestantes eram conduzidos e manipulados, recebendo transporte, alimentação e as próprias pautas de suas solicitações, num teatro que só enganava àqueles que assim queriam.
Neste dia 19 de abril, quebrando as medidas de isolamento impostas por conta da contenção da transmissão do novo coronavírus, numerosa parcela da população insatisfeita, em carreata, foi às ruas com várias demandas e, dentre estas, o que se apresentou como destaque foi o pedido aos militares para que fechassem o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.
Devemos concordar que esta é uma questão que não passa pela cabeça do cidadão que vive numa democracia, mesmo por que as nossas Forças Armadas estão vacinadas quanto a esse tipo de vírus, e não se espera, também, que um presidente da República lá esteja, seja por que razões for, e faça disso um palanque.
Todavia, chama nos a atenção que, os ditos defensores da democracia, se apeguem aos ilegítimos pedidos expressados pela população, para desqualificar a sua ida à rua, mas não dão nenhuma atenção ao porquê de tais solicitações. Antes de desqualificar o pedido, deveriam, antes de tudo, se perguntar porque essas pessoas clamam por algo tão insólito. Esse sim é o xis da questão, que traz o entendimento à situação que causa tanto espanto.
Senhores defensores da democracia, o seu Congresso Nacional e a sua Suprema Corte, desde muito tempo, nesse país, lhes digo, se ainda não sabem, viraram as costas para a sociedade e só servem para atender a interesses escusos. O Congresso dificulta a luta contra o crime, breca ou torna inócuas as pautas para dar mais dinamismo à economia e assalta os cofres públicos com os Fundos Partidário e Eleitoral. A nossa Suprema Corte, por seu lado, frustra a população, favorecendo alguns e dificultando a luta contra a corrupção.
Se realmente o que se busca é defender a democracia, levem em conta a ida do povo à rua, relevem a insensatez do seu pedido, ela é reflexo direto do desespero de quem votou para obter o paraíso e lhes foi dado o inferno, foquem na razão primordial do problema: as Instituições que não cumprem o seu papel perante a sociedade, elas sim ameaçam o Estado Democrático de Direito.
*Um Cidadão Brasileiro
General Eduardo Diniz