Aguarde, carregando...

Domingo, 28 de Junho 2026
Notícias Colunistas

A Lei Cidade Limpa em risco: retroceder é inaceitável

Colunista *Prof. Luiz Flávio Borges D’Urso

A Lei Cidade Limpa em risco: retroceder é inaceitável
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

São Paulo não pode andar para trás. Depois de quase duas décadas de um esforço coletivo que transformou nossa paisagem urbana, surge a pergunta incômoda: por que desmontar o que deu certo?

A proposta de flexibilizar a Lei Cidade Limpa, aprovada em primeira votação pela Câmara Municipal de São Paulo, não representa modernização, mas sim, um grande retrocesso. Significa reabrir as portas para o caos visual que tanto nos custou superar. Permitir que até 70% dos espaços públicos e prédios históricos sejam tomados por propaganda não é inovação, pelo contrário, é desrespeito à memória urbana e ao bem-estar coletivo.  

Desde 2006, quando a lei foi implementada pelo então prefeito Gilberto Kassab, foram retirados mais de 15 mil outdoors. A cidade, antes sufocada e poluída por anúncios de todos os tipos, começou a respirar novamente. Recuperamos a dignidade de nossas fachadas, monumentos e marcos históricos. E agora, querem desfazer tudo isso.

Adverte-se, não se trata de ser contra o novo. Modernizar não é apagar o passado ou abrir mão do que deve ser preservado, é integrar, com sabedoria, o que a tecnologia oferece com aquilo que precisa ser protegido. A justificativa de que painéis de LED trariam dinamismo à cidade não se sustenta. Basta olhar as marginais Pinheirose Tietê para constatar que as concessões já feitas ali geraram conflitos e sobrecarregaram a fiscalização, que hoje dá conta de apenas 12% das denúncias. Imagine o que aconteceria se essa flexibilização se espalhasse pela cidade inteira.

E mais, ainda pior, prédios históricos, alguns com séculos de existência, virariam suporte para publicidade. Não é exagero, há um risco real. E não estamos falando de vetar avanços, mas de proteger o que é nosso. O que está em jogo é o direito coletivo a uma cidade limpa, ordenada e visualmente saudável. A paisagem urbana também é patrimônio.

Há ainda o argumento da economia que tenta sensibilizar a todos. Diz-se que a medida ajudaria pequenos empreendedores. Mas é uma ilusão. A lei atual já permite publicidade em locais estratégicos, como pontos de ônibus, transporte público e fachadas comerciais, desde que respeitadas regras claras. Abrir tudo para a propaganda descontrolada só beneficiará grandes grupos empresariais com poder financeiro para ocupar os pontos mais disputados. O pequeno seguirá sem espaço. Enquanto isso, o preço será pago por todos nós, com poluição visual em áreas residenciais, comprometimento da sinalização de trânsito, desvalorização de imóveis e mais ruído visual numa cidade que já é caótica.

A solução não está em destruir o que foi conquistado, mas em aprimorar. Se existem falhas, que sejam corrigidas com inteligência. Podemos, sim, utilizar tecnologias, como a inteligência artificial, para fiscalizar e coibir abusos. Podemos definir zonas específicas para mídias digitais, longe de áreas sensíveis. Podemos, sobretudo, garantir que tudo seja feito com transparência, por meio de editais públicos, concessões responsáveis e diálogo com a sociedade.

E esse diálogo é urgente. As audiências públicas precisam acontecer, não para validar um projeto que já nasce equivocado, mas, para encontrar caminhos verdadeiramente sustentáveis. Como bem disse o ex-prefeito Gilberto Kassab, “flexibilizar agora é um golpe contra o direito à cidade”.

São Paulo merece um debate sério, transparente e responsável. Não podemos permitir que a paisagem urbana, que tanto nos esforçamos para recuperar, seja colocada à venda no balcão do marketing predatório. A cidade já sofre demais. Não é justo deixá-la refém do poder econômico e da indiferença.

* Advogado Criminalista, Mestre e Doutor em Direito Penal pela USP, Pós-Doutor pela Faculdade de Direito de Castilla-LaMancha (Espanha), Presidente da OAB/SP por três gestões (2004/2012), Vice-Presidente da Associação Comercial de SP (ACSP), Presidente de Honra da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas (ABRACRIM), Presidente da Academia Brasileira de Direito Criminal (ABDCRIM) e Conselheiro da Federação das Indústrias de SP (FIESP).

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.

+ Lidas

Nossas notícias no celular

Receba as notícias do Semanário ZN no seu app favorito de mensagens.

Telegram
Whatsapp
Entrar

Veja também

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR