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Zeitgeist, o espírito do tempo

Colunista Otávio Rêgo Barros

Zeitgeist, o espírito do tempo
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O conceito de Zeitgeist — espírito do tempo — teve origem na intelectualidade alemã. Basicamente se revela quando os atos e omissões da sociedade se ajustam às vagas da opinião que se forma em um determinado momento. As pessoas refletem sobre os acontecimentos anteriores e, quando esses acontecimentos parecem lhes dizer respeito, muitas vezes tentam, consciente ou inconscientemente, projetar e ajustar seu comportamento de modo a atingir ou a evitar um resultado comparável. Em face das disputas eleitorais, estamos refletindo um espírito do tempo que não está encaixado com a realidade nacional e internacional. Naturalmente, a sociedade brasileira passará por solavancos poderosos — choro e ranger de dentes — até a finalização da corrida eleitoral. Os interesses pessoais e grupais já demonstram essa linha de agressividade.

Os candidatos mais próximos a tomarem assento no Planalto estão usando uma polaridade exacerbada, que se estabeleceu por ausência de terceiros, para manter o caldeirão de emoções em fervura elevada. Todavia, acreditar que existam condições de golpes armados ou institucionais à semelhança daqueles desencadeados em meados do século passado é observar o cenário com antolhos.

Quando um país é parte de uma comunidade ideológica internacional onde a democracia é quase incontestada na sua essência, sendo usada inclusive como muleta a partidos autoritários para chegada ao poder, as chances de esse país subverter os princípios que ela defende são menores. Quando se somam à influência ideológica, as necessidades econômicas, tecnológicas, militares, migratórias, psicossociais, ambientais etc., amalgamadas em interesses geopolíticos históricos de países hegemônicos, praticamente elas desaparecem.

Voltando ao Brasil. Discursos de campanha são inspiradoras de seguidores e tentativas de mudança de opinião a indecisos e até a adversários. Podem não ter substância, serem chulos, despreocupados com a realidade do país e até instigarem violência. Podem ser desconcertantes perante outros países, alvo de escárnio interno e não oferecerem soluções a desafios prementes. Mas eles só se transformarão em instrumentos de conturbação social se a sociedade aceitar ser empurrada para o precipício da confrontação. Se as Instituições demonstrarem flacidez em suas respostas corretivas. Se organizações que lidam com a segurança e defesa em nome do Estado abdicarem de seus papéis de ferramenta da estabilidade e legalidade constitucionais.

A sociedade, ainda que dividida, não parece querer marchar como gado para o corredor do abate. As instituições, ainda que sofrendo ataques diários, não parecem querer a briga de rua inconsequente. As forças de segurança e defesa, ainda que pressionadas, não parecem querer trilhar um caminho de aventuras como no passado. A imprensa também se faz vigilante, a academia se faz vigilante, o PIB se faz vigilante, a Igreja se faz vigilante, muitos estão vigilantes.

A opção de governos militares (temor que se revela em comentários diários em diversos círculos de opinião), perseguida por muitos países no último século, contribuiu para uma profunda revalorização da democracia não apenas como um instrumento tático de poder, mas como um valor espiritual em si. As Forças Armadas brasileiras, seus comandantes e seus quadros acompanharam institucionalmente esse movimento. A guerra fria, como justificativa para agrupamentos de países em torno das duas potências, ficou pelo caminho.

Trinta anos após o "fim da história", o que se vê são movimentos mais amplos de reacomodação dos interesses geopolíticos com base em reafirmação de preeminências pretéritas. Estados Unidos, China, União Europeia e Rússia, os hegemônicos, seguidos por potências com interesses regionais como o Japão, a Índia, a Austrália, o Irã, a África do Sul e o próprio Brasil se ajustam ao novo ritmo.

O espírito do tempo não parece estar alinhado com fricções que levem a derrubadas ou tomadas de poder semelhantes àquele período bipolar. O comunismo era uma experiência nova que na opinião de muitos mostrava-se altamente promissora. Faliu.O fascismo, com suas manifestações nacionalistas, chegou a ser elogiado pelos Estados Unidos. Faliu. Alguém pode afirmar que um fascismo com cores modernas está se assumindo como contraponto à democracia. Talvez. Mas qual o Zeitgeist para que ele se torne verdadeiramente ameaçador? Dificilmente as lideranças dos países "donos do mundo" gastarão energia para intervir no quintal de outro bloco.

Mas certamente estarão dispostas a arcar com o ônus dessa ação se lhes for tentado tirar o espaço de proteção geográfico vital ao seu povo e a seus aliados mais próximos. Portanto, a Sociedade (lato sensu) atenta não será levada ao cadafalso. E as lideranças que buscam a instabilidade em benefício de um projeto patrimonialista, muita atenção. Cada um no seu quadrado. Paz e bem.

* General de Divisão da Reserva, ex-chefe do Centro de Comunicação Social do Exército

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