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Segunda-feira, 16 de Março 2026

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Uma guerreira de selva com brevê em educação

General Otávio Santana do Rêgo Barros

Uma guerreira de selva com brevê em educação
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Não existe ideologismo, existe oportunismo” O motor da voadeira descaracterizada resfolegava contra a correnteza do Rio Madeira.

Estávamos em uma missão de inteligência para colher dados sobre traficantes na região de Humaitá. Era época de muita chuva e visibilidade restrita. Diminuímos a velocidade para não batermos nos troncos submersos, comuns naquela região. Ao longe avistamos uma pessoa acocorada na beira do rio, envolta por um fino poncho de plástico transparente, que sinalizava para a embarcação. Nos aproximamos cautelosos. Era uma jovem, com fortes traços indígenas.

A moça relatou que estava esperando a barca passar há horas e como já avançava a tarde achou que não viria mais. Sua casa estava quilômetros mata adentro, em uma pequena fazenda e se retornasse corria o risco de ter que dormir no meio da selva. Precisava seguir para a cidade onde iria buscar o salário de professora municipal pago a cada dois meses. Aproveitamos as três horas de viagem para extrair informações que nos ajudassem em nosso relatório sobre a região. A professora morava em uma fazenda homizio de criminosos, lecionava educação básica a crianças indígenas e filhos dos traficantes que dominavam a área.

A escola era um barraco coberto por palha de babaçu, mesas rústicas, sem lousa, com as crianças sentadas em estrados de madeira como se fossem bancos. Tinha uma filha pequena que ficava na cidade com a avó materna, enquanto ela trabalhava no coração da selva. Seu salário era dividido na metade, com a outra parcela sendo embolsada pelo prefeito e secretário de educação. Os traficantes a protegiam e afirmavam que o destino de seus filhos dependia da boa educação que ela pudesse passar às crianças. O chefe da operação tratou de cooptá-la e até hoje, muitos anos passados, ainda mantém contato com aquela guerreira da selva.

Sim, uma guerreira, pois mesmo diante de tantos obstáculos, formou-se pedagoga, tem pós-graduação e está tentando fazer mestrado para ajudar as comunidades como gestora educacional. Sua filha, no mesmo diapasão, formou-se em direito e ajuda as comunidades ribeirinhas a inserir-se na legalidade. A história é verdadeira e ocorreu em meados dos anos 1990. É um relato de um velho companheiro, agora na reserva, quando lhe comentei sobre o tema educação como chave libertadora das amarras ideológicas que a nossa sociedade se submete dia a dia. Aliás, disse-me que não acreditava em nenhum ideologismo. Os de direita, esquerda, centro, liberal, conservador, para ele era tudo oportunismo - “as elites pensam, meu bolso tando cheio, os outros que se danem”. Embora culto, creio que os anos embrenhados na selva, a lida com gente humilde e de palavra simples, lhe transformaram seu sutil pensamento em verdades diretas e sem arrodeios.

Ainda comentou que o Gramscismo e o Olavismo, facções teóricas alinhadas ao divisionismo político que se instalou no Brasil, buscam dominar os bancos escolares, mas não demonstram capacidade para dar curso a uma virada eficaz na educação. Um país que ajusta seu orçamento deficitário cortando em educação. Um país que investe muito pouco em pesquisa aplicada. Um país que usa os fundos financeiros constitucionais para sinecuras políticas. Um país que não se estrutura para ensino profissionalizante. Um país cujo piso salarial de professores é dos mais baixos entre as 40 nações mais ricas do mundo, segundo avaliação da OCDE.

Esse é um país que ofende mortalmente a máxima de Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros”. Esse é um país que tem poucas chances de avançar para um estágio de sociedade lúcida e equilibrada, com paz e bem-estar sociais. O que pensam os candidatos às cadeiras do Executivo e Legislativo, além de se ofenderem diariamente, quanto à educação formal e técnica-profissional? Até o momento pouco sabemos e eles não se aventuram a esclarecer. Se tiverem dúvidas, se inspirem na professora amazônida do relato inicial ou em países que venceram o déficit educacional com muita resiliência.

A Coreia do Sul estava abaixo do Brasil em índices educacionais na metade do século passado Hoje é um exemplo a ser seguido. Elaborou um projeto de longo prazo a partir da década de 1960, valorizou professores, praticamente erradicou o analfabetismo e colocou 82% dos jovens na universidade. Há luz fora da caverna. É mister que nossos políticos se esqueçam das bobagens ideológicas, meros oportunismos eleitorais, que só servem para manter a massa sob cabresto do obscurantismo vigente na caverna platônica de nossos dias.

Foquem na cultura, na educação, na pesquisa. A história os reconhecerá. Talvez como os déspotas esclarecidos do século 21. Ainda que déspotas, mas, ao menos, esclarecidos. Paz e Bem!

* General de Divisão da reserva

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