Recentemente recebi um vídeo de um amigo com uma fala do escritor paraibano Ariano Suassuna – que depois encontrei no Youtube - afirmando que sem a crença em Deus ele seria um ser “desesperado” por não conseguir suportar a visão dura e amarga de um mundo repleto de diferenças.
Ao expressar sua crença de que Deus é essencial para dar sentido à existência humana, evitando, inclusive, o desespero diante da morte, ele menciona versos do poeta popular Leandro Gomes de Barros, seu amigo e conterrâneo, que trazem indagações que, em verdade, são questões filosóficas, que permeiam o pensamento de toda pessoa.
Disse Suassuna: “... ou existe Deus ou a vida não tem sentido nenhum... bastaria a morte para tirar qualquer sentido à existência... Não é? ... Uai, o grande poeta popular, Leandro Gomes de Barros, meu conterrâneo da Paraíba, ele escreveu três estrofes, três cestilhas, que é uma pergunta mais seria que uma pessoa que não acredita em Deus pode fazer as que acreditam. Repare, ele disse, se eu me encontrasse com Deus, se eu conversasse com Deus iria lhe perguntar: por que é que sofremos tanto quando vimos para cá; que dívida é essa que o homem tem que morrer para pagar? Perguntaria também como é que ele é feito, que não dorme, que não come e assim vive satisfeito, por que foi que ele não fez a gente do mesmo jeito? Por que existem uns felizes e outros que sofrem tanto, nascido do mesmo jeito, criado no mesmo canto, quem foi temperar o choro e acabou salgando o pranto? ... ”.
Esses questionamentos poéticos sobre o mistério da vida e da dor humana ponderam sobre a justiça divina e a condição existencial. De fato, tocam nos pontos mais profundos da existência humana, situando-se na fronteira entre a filosofia, a teologia e a espiritualidade, levando-nos a refletir sobre a reencarnação, que explica que as desigualdades se justificam na jornada espiritual de cada ser, sempre em busca da perfeição.
Oportuno lembrar que, de um lado, os filósofos antigos, como Sócrates e Aristóteles, já defendiam que a verdadeira felicidade está além dos bens materiais, que são efêmeros, encontrando-a na virtude da alma, algo que todos podem buscar independentemente da situação física. E, de outro lado, a reencarnação é um conceito central de várias religiões, tendo, inclusive, sido aceito no cristianismo primitivo antes do tema ser excluído no Concílio de Constantinopla, em 553 d.C.
Se a perfeição - o telos aristotélico - é a meta, considerar essa hipótese talvez nos ajude a entender a estrutura do universo como algo organizado e com propósito, tendo a morte como um processo de transição e a vida, ao persistir após a morte da matéria, como um degrau de aprendizado e aperfeiçoamento rumo à perfeição moral, portanto, espiritual.
Entendendo que somos seres em processo de aperfeiçoamento, o que parecia injusto perante a vida é, muitas vezes, o reajuste necessário para o progresso, que é uma lei do universo, por meio do esforço e trabalho de cada pessoa.
Enfim, como somos seres em constante progresso, a desigualdade, além de uma questão social, seria um reflexo de diferentes estágios de aprendizado na evolução da alma em busca da perfeição.
*Paulo Eduardo de Barros Fonseca
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