Infecções recorrentes, provocadas pelo crime organizado, milícias, descaso com a vida, corrupção a céu aberto, dentre outras, atacam rotineiramente importantes órgãos da estrutura do Estado brasileiro. Que sejamos claros, não é desafio exclusivo de um governo
De manhã você acorda indisposto, com coriza, dores no corpo, estado febril, placas na garganta e vontade de ficar na cama.
Por precaução você procura um médico especialista que recomenda antibióticos, antitérmicos, repouso e muito líquido.
Como as infecções se tornaram recorrentes, ele indica um tratamento prolongado para aumentar a imunidade.
A metáfora introdutória nos ajudará a compreender o estado clínico sensível em que se encontra a sociedade brasileira diante da (in)segurança pública.
Infecções recorrentes, provocadas pelo crime organizado, milícias, descaso com a vida, corrupção a céu aberto, dentre outras, atacam rotineiramente importantes órgãos da estrutura do Estado brasileiro.
Que sejamos claros, não é desafio exclusivo de um governo. Ele não tem coloração. Não é problema da direita ou da esquerda. Convive com a gestão de todos os espectros políticos.
Segurança pública está entre os temas prioritários das plataformas eleitorais. Mas, quando os gestores de turno assumem a cadeira, têm dificuldade de implantar políticas consistentes.
Esses erros precisam ser discutidos sem cerimônia, por amplo conjunto de stakeholders e com a serenidade que o caso impõe.
Um exemplo dessas dificuldades são as operações de garantia da lei da ordem (GLO), acionadas de tempos em tempos, por governos pressionados no debate público, como terapias complementares às crises de segurança pública.
Embora as Forças Armadas possam e devam colaborar, elas são tão somente uma parte da solução requerida para proteger a sociedade.
Seu emprego deve ser compreendido, notadamente, como indutor temporário de outras ações para a transformação do quadro.
Uma anamnese isenta mostrará que os aspectos básicos da pirâmide de Maslow como segurança alimentar, segurança pública, acesso às escolas, projetos culturais, suporte laboral, ajustes urbanísticos etc. não estão disponíveis à maioria da população, permitindo que a bactéria da (in)segurança ganhe força no corpo debilitado.
Os eventos mais recentes de descaso e violência ocorridos na cidade do Rio de Janeiro chocaram todo o país, empurrando as lideranças estaduais e federais para uma resposta imediata diante da pressão da opinião pública.
Soldados, marinheiros e aviadores, imbuídos da missão subsidiária que lhes foi imposta, voltarão à ribalta e trabalharão, certamente, com denodo em mais uma operação de GLO.
Patrulhar fronteiras, portos e aeroportos, como foi anunciado recentemente, são ações importantes é verdade, mas insuficientes como tratamento final.
Quando as Forças Armadas foram empregadas no próprio Rio de Janeiro, na década passada, colaboraram efetivamente para a melhoria da percepção de segurança.
Contudo, quando os militares foram evacuados das áreas de operação, os outros atores pouco fizeram para manter a qualidade de vida alcançada nas comunidades.
Segurança pública é um tema que subiu de patamar. Assume-se, neste momento, como questão de Estado, sob pena de cisalhar o tecido social.
A recorrência das crises exigirá das lideranças, em todos os campos do poder, ações mais qualificadas e mais duradouras.
No escopo da própria segurança pública: combate à corrupção interna, reaparelhamento dos órgãos, reformulação e aperfeiçoamento do treinamento dos policiais militares e civis e sofisticado e integrado sistema de inteligência.
Como efeito complementar: profundas alterações na legislação penal que se mostra por demais leniente com o bandido, tolerância zero com quaisquer delitos, comprometimento efetivo das lideranças políticas, projeto interdisciplinar que acolha opiniões divergentes, justiça menos cega e mais alinhada aos anseios da população.
A sociedade, impactada no dia a dia pelo problema, deverá assumir seu papel de fiscalizadora e exigir tratamento mais agressivo que seja compatível com o desafio.
A terapia administrada precisará ser invasiva e talvez ofenda, em alguns momentos, supostas liberdades individuais. Por isso deverá ter o farol apontado em preceitos democráticos inquestionáveis na comunidade.
Quando iniciada, os líderes não poderão recuar. Precisarão ser resilientes para chegar ao fim da grande jornada, sob pena de que o corpo físico e moral da nação brasileira feneça diante do mal que o acometeu.
Tenho esperanças! Juntos somos mais fortes.
Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva